A birra nossa de cada dia

 

IMG-20160701-WA0022 (2)

 

_ Vamos colocar essa calça agora para podermos ir à creche.

_ Qué a veveve, papai. (vermelha)

_ Vamos colocar esse tênis agora.

_ Qué cóqui, papai (croc)

_Vem então para colocarmos essa blusa pois está frio.

_Qué fofo com goiô. (casaco com gorro)

Fim da manhã. A hora de almoçar e se arrumar para a creche. Junta mochila, põe fraldas, roupas reservas e tudo o mais. Tudo muito corrido, mas o momento de colocar roupa virou uma grande negociação. Quer dizer, virou a hora da birra.

A birra das onze.

Diante de qualquer negativa da vestimenta por parte deste pai que vos escreve, eis que Luísa abre a boca a chorar, berra, se irrita e tenta tirar qualquer calça que eu coloque que não seja da cor vermelha. Em seguida, pede colo, pede pela mãe, pelo gorro, pela praia e reclama que quer dormir.

De umas semanas para cá, calças vermelhas viraram item obrigatório na hora de ir para creche. É estressante negociar, muitas vezes coloco outra cor e ela vai berrando pelo caminho. Me dá vontade de chorar e berrar também, chego exausto em casa, atordoado com o tamanho do xororô. Outro dia cheguei e desatei a chorar. Mesmo nesse sufoco, decidi que nunca vou aderir à tática da palmada. Acredito piamente na educação e nos princípios que aprendi com meus pais: o respeito se constrói com o diálogo e palavras firmes. A postura da “mão aberta” da palmada só impõe o medo. E medo e respeito não andam juntos.

Passamos a deixar as calças vermelhas para que Luísa as use na creche. A exigência agora é a sandália croc e um agasalho que já sabe o caminho da escola de cor e salteado.

E não é só por isso que ocorrem as birras. A pequena está bem, brincando, e de repente se irrita por que, por exemplo, não consegue se fazer entender. E percebemos que, depois que começou com a creche, ficou mais manhosa. Pede colo, pede que eu segure a mão dela para dormir ou então quando estou dirigindo e ela está no banco de trás.

Muitas vezes não sabemos o que fazer. É difícil estipular o limite do que é manha ou do que é uma necessidade de carinho. Ficamos com aquele medo de, como dizem alguns, “estragar” a criança, a transformando em uma criatura mimada e mandona. Tenho lido sobre o assunto. Minhas fontes foram o pediatra Daniel Becker, autor da Pediatria Integral, e Carlos Gonzaléz, espanhol que escreveu Bésame Mucho – que aliás, venho adotando como grande guru (leia uma entrevista com ele na Revista Crescer aqui e conheça o site de Daniel Becker aqui).

As linhas são diferentes, mas a questão sempre recai em um ponto: o de que a criança não é o centro do mundo, mas que é preciso estar presente e dar carinho para demonstrar isso. O segredo seria saber lidar com a emocionalidade (aflorada e muitas vezes descontrolada nesses primeiros anos de vida) e com a frustração. Muitas vezes nós adultos não sabemos lidar com isso, o que dirá um serzinho de dois anos.

González ainda defende o colo e explica como as crianças andam afastadas dos pais hoje em dia. Muitas ficam o dia todo na creche – não é o caso da Luísa – e depois ainda tem outras atividades pois os pais chegam tarde em casa. A vida moderna e a ausência dos pais estariam aflorando esses problemas, segundo ele. Não adianta pegar a criança na creche e colocar um tablet na mão dela. O que uma criança quer é conversar, é contar como foi o dia, é brincar com papai e mamãe.

Me arrepio ao pensar ver nossa pequena por duas ou três horas ao dia, e presencio o sofrimento da Gisele por ficar menos tempo do que gostaria com a filha. Tem uma frase do pediatra Daniel Becker que me chamou a atenção: “Todas as crianças tem limites. A questão é nos darmos conta de que os pais também precisam ter”.

E qual é o limite? Negar o uso de uma calça vermelha porque ela não combina com uma croc cor de rosa? Falar não a um pedido de colo para que Luísa não se torne uma garota mimada? Eu, com meus 40 anos, tenho sentido tanta saudade de um colo de mãe e de pai… Só que a distância de mil quilômetros me impede de ter esse carinho. Quando Luísa tiver oito, dez anos, serei eu a implorar por um colo. Por quê negar agora?

Prefiro deixar o não para outras questões mais graves, como por exemplo o que aconteceu outro dia desses no quarto dela. Luísa se negou a guardar os brinquedos e queria descer para brincar na sala. Pedi que guardássemos os brinquedos. A reação foi intempestiva: começou a gritar e jogar tudo no chão. Fechei a porta e disse:

_ Quem brinca tem que guardar os brinquedos. Só vamos sair daqui quando colocar tudo na caixa.

Ela relutou um pouco, choramingou mas quinze minutos depois fez o que pedi.

No dia seguinte, brincamos de fazer comida e, outra vez, ela se recusou a guardar os brinquedos. Usei a mesma tática.

Luísa guardou uma panelinha na caixinha, em seguida colocou um fogãozinho e parou. Olhou para mim e logo me rebateu:

_Papai brincou? Guarda papai, guarda também…

Ri, pois gostei do raciocínio e a ajudei a guardar. Neste caso, Luísa aprendeu a lição, entendeu o meu pedido. Me deu uma “volta” na hora de argumentar sobre o por quê de guardar os brinquedos – e sobre quem deve fazê-lo. Acho que é justamente esse o ponto. Ela deve pensar, respeitar e, acima de tudo, raciocinar.

A briga na hora da roupa ainda continua. Mas aos poucos vamos nos ajeitando. Afinal de contas, calças vermelhas e croc cor de rosa não formam uma combinação tão feia assim.

You may also like...