A saga do papai em busca de um hossomaki milagroso

Sushi no Campeche em Florianópolis

 

A pergunta feita pela mamãe pareceu mágica. Num piscar de olhos, a pequena respondeu que sim e esboçou um leve sorriso.

Luísa estava há dois dias sem se alimentar e nós já estávamos em pânico. Apática, prostrada, praticamente sem nenhuma reação a absolutamente nada e com uma febre que teimava em ceder. A única coisa que ela queria era “nanar”.

Havíamos ido duas vezes ao médico para poder enfim descobrir que se tratava de uma infeçção no ouvido. Na primeira, a médica não havia encontrado nada além da febre que passava dos 41 graus. Mamãe fez comida, preparou suco e mesmo assim, nada de comer. O bebê fraquíssimo dormiu por horas. Depois, ainda sem demonstrar nenhuma disposição, resolveu assistir um pouco de desenho sentada na sala. Foi quando Gisele arriscou a pegunta:

_Luísa, você quer sushi?

A resposta foi um sim. Bem tímido, é verdade, completamente diferente da animação a cada vez que o”japa” lhe era oferecido. Mas era um bom sinal, já que no dia anterior ela recusou balançando levemente a cabeça. Mais ainda, era uma oportunidade para que Luísa não fosse dormir mais uma noite sem comer absolutamente nada. Será que mamãe havia encontrado a solução para a falta de apetite?

_ Papai, você vai buscar para ela?

Só havíamos esquecido de um detalhe: era noite de segunda-feira.

E aí começou a minha saga na busca por um sushi. Para quem não sabe, sob essa imagem de cidade cosmopolita, cheia de agito, baladas maravilhosas e de grande capital que atrai turistas do mundo inteiro, Florianópolis é bastante provinciana. Muitos estabelecimentos em alguns bairros ainda fecham para o almoço e, nas noites de segunda, quem espera comer fora deve saber que o risco de voltar para casa com fome deve ser levado em conta.

Como um samurai obstinado em cumprir sua missão, saí de casa para atender o pedido da Luísa. Procurava por um pouco de sushi, mais especificamente pelo hossomaki de salmão (quem não conhece é esse aí da foto acima). É o preferido dela. Normalmente come de oito a dez em uma sentada só e, ultimamente, ela vem pedindo sushi duas vezes por semana. Para quem estava há dois dias praticamente recusando todo tipo de comida, qualquer um ou dois que conseguisse comer seria lucro.

O problema era encontrar. Andei por quilômetros na região sul-leste da ilha e vi de quase tudo. Carrinhos de churros, pastéis, crepes, pizza, espetinhos premium, cachorro quente, um pátio com meia dúzia de food trucks especializados em comida orgânica e até um restaurante mexicano aberto. É claro que também encontrei pelo menos umas 1638 casas especializadas em hamburguer gourmet. Mas nada de sushi.

Depois de rodar bastante, finalmente encontrei um restaurante japonês aberto – que aliás, estava lotado. Minha esperança caiu por terra logo que entrei e me informaram que não havia como preparar um hossomaki: as noites de segunda são dedicadas exclusivamente ao temaki (aquele, em forma de cone e que mais parece um sorvete). Nada feito. O máximo que eu conseguiria era um niguiri ou um sashimi.

Esse é um niguiri. Não se parece com o que a Luísa gosta. E agora?

Ainda tentei encontrar em dois outros locais, sem sucesso. Aí voltei para esse restaurante para comprar algo que pudesse ficar mais parecido com um hossomaki. Sugeri picotar o temaki.

_Ele vai desmontar assim – disse o sushiman, incrédulo com minha paixão pelo hossomaki. O que podemos fazer é colocar uma alga em um niguiri de salmão, como se fosse um cinto. Vai parecer estranho, mas é o mais próximo que terá.

Concordei. E liguei para a Gisele dizendo que teríamos algo próximo ao prato que Luísa gostava. O sushiman ouviu a conversa e perguntou se era para a minha filha. Aí contei a história, falei que não estava encontrando lugar nenhum aberto, que a pequena estava há dois dias sem comer por causa de uma otite e de muitas aftas na boca e que hoje finalmente havia pedido por um sushi. E que era por isso que eu queria uma porção de hossomaki, o mais simples e sem graça dos pratos japoneses, na minha opinião.

_Eu vou fazer para você.

Em cinco minutos, o sushiman fez dez hossomakis para que eu levasse para casa. Voltei com aquela sensação de que era um super-herói, talvez até um samurai que havia cumprido a sua missão. Luísa esperava com mamãe, teve ânimo para sentar em sua cadeirinha e comer três peças. Depois voltou a deitar. Mais tarde, pediu outro.

Foi um alívio. Só tenho que agradecer ao sushiman (de quem não recordo o nome agora) e ao pessoal do restaurante Mania de Temaki  (clique no link para conhecer), ali na praia do Campeche. Obrigado mesmo.

Luísa não comeu como antes, mas depois sentou para assistir Peppa e até esboçou uma ou outra brincadeira antes de dormir no tatame. Depois, quando a carregava em meu colo para o quarto, ela sorriu. E nós fomos dormir um pouco mais aliviados.

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