Adoção, dois anos depois: o urgente e o importante

Luísa escovando dentes

Como esse tal de tempo passa rápido. Essa semana completamos dois anos que a Luísa chegou em nossas vidas.

Só quando a gente diminui um pouco a velocidade é que consegue analisar como a vida acaba mudando por completo com a chegada de uma criança. É uma guinada de 360 graus em praticamente todos os aspectos.

Refletindo um pouco sobre isso, vejo como mudou tudo: a cor dos alimentos no meu prato durante o almoço, meu horário de acordar e dormir e, principalmente, o valor que dou a determinadas coisas e a forma com que passei a olhar o mundo ao meu redor.

Adotar uma criança é muito intenso. As emoções ocorrem de uma maneira muito surpreendente, instantânea, enfim, é quase uma mágica. Não dá para explicar. Não sabemos quando iremos encontrar nosso potinho de ouro, qual será o tempo de espera e, em casos como o nosso, não há sequer noção sobre idade ou sexo.

E entre conhecer a Luísa e levá-la para casa foram apenas três dias (SAIBA COMO FOI AQUI). Não tivemos um pré natal, conselhos de amigos ou familiares ou mesmo tempo para ler um livro sobre o tema. E o bebê já estava ali, prontinho e com todas as suas necessidades a todo vapor. Não havia estoque de fraldas, leite, nem roupas, nem quarto montado. Só o amor… Mas só o amor não seria suficiente. Precisava pensar nas coisas práticas: primeiramente, precisava saber como “funcionava” o bebê e como era ser pai.

Aí, no dia que a vi pela primeira vez, paralisei por completo. Não consegui sequer pegá-la no colo, relutei e só o fiz após muita insistência da Gisele. Eu sabia que dali para frente minha vida iria mudar, mas não tinha a idéia do tamanho desta mudança.

Tudo que é novo assusta um pouco. Tudo o que te tira daquilo que você pensa que é sua “zona de conforto” é apavorante. E comigo foi assim.

Era uma sexta-feira 13 quando deixamos o abrigo e seguimos com a pequena no colo para a nossa casa. Foi um dia frenético, em que eu conciliava – ou pelo menos tentava – uma entrada ao vivo no jornal para falar sobre a situação do trânsito em Florianópolis, ao mesmo tempo que lutava para montar o bebê conforto no carro. CONFIRA AQUI COMO FOI.

O tempo foi passando, mamãe voltou a trabalhar e Luísa acabou ficando sob meus cuidados. Isso não foi algo que planejamos desde o início. Foi acontecendo e a “vida nos levando” a essa decisão de não matricular a pequena na creche nos primeiros anos.

Neste período, cheguei a abdicar de algumas questões profissionais, é verdade. Sinto que estou passando por uma espécie de ano “sabático”, onde mudei muito dos meus conceitos sobre o que eu produzia – e principalmente sobre a forma com que eu fazia. Quantas vezes saí de casa durante a noite ou nos finais de semana, ou então deixei de lado um momento de lazer e de descanso para cuidar de um protesto, cobrir a presença de um famoso em alguma casa noturna, um atentado contra ônibus, um crime ou seja lá o que fosse que pudesse dar notícia.

Tudo era urgente.

Hoje, presencio cada palavra da Luísa (por enquanto ainda são poucas), cada nova descoberta. Vejo bem de perto quais são seus desenhos, brincadeiras ou alimentos preferidos e cada degrau que avança. Estou ao seu lado em toda nova aventura.

Isso é importante.

No ritmo que eu andava, não conseguiria prestar atenção no desenvolvimento de minha filha. Ela cresceria diante dos meus olhos sem que eu tivesse participado disso. Depois, iria me lamentar que o tempo passou rápido demais. Ele passa sim, é verdade, mas podemos aprender a aproveitá-lo um pouco mais.

Não passei por nenhum trauma, não abandonei a profissão e nem precisei ser vítima de um passaralho que tanto assombrou a minha classe este ano (esse é um termo que nós jornalistas usamos para definir demissões em massa em veículos de comunicação). O que acho mais legal de tudo é que a mudança em meus conceitos ocorreu após uma coisa boa.

Lógico que não vou me transformar em um ermitão e me isolar na praia da Solidão ou então sair de barco pelo mundo afora. Sinto falta de algumas coisas do jornalismo – mas do bom jornalismo – e venho suprindo isso com alguns novos projetos para 2016.

Como eu sempre digo, é a Luísa que sempre me ensina o caminho. Há dois anos ela chegou como um furacão em nossas vidas, colocou tudo de pernas para o ar e nos mudou por completo. E quando acho que não tenho mais nada para aprender com ela, surgem mais e mais lições.

Fim de ano é um bom momento para pensar. Se você suportou ler esse texto até aqui, deixo umas perguntinhas: O que tem feito de sua vida? Você gosta do que faz?As coisas que considera urgentes são de fato importantes ou são apenas urgentes? Tudo que é importante tem que ser urgente?

O que a Luísa vem me ensinando nestes dois anos é que nem tudo que é importante precisa ser urgente.

luisa caminho e companhia

You may also like...