Adoção e o Amor Instantâneo

Versão 2

 

O amor é algo gradativo, que construímos e lapidamos ao longo dos dias e anos, ou é instantâneo?

Não tivemos filhos biológicos, então não sei dizer como é a sensação. Acredito que a gente passe a amar a criança cada vez mais ainda na barriga da mamãe. Mas durante algumas semanas não é algo visível, palpável. Já no caso do adotar, é como se a função “amar” do nosso coração fosse acionada no ON e na velocidade e volume máximos. Foi isso que senti quando vi a Luísa pela primeira vez.

Na semana em que comemoramos o Dia Nacional da Adoção vou voltar a contar um pouco da história do nosso encontro com a Luísa. O tema sempre  esteve presente em nossa vida. Adotamos seis gatos (ou melhor, seis gatos que nos adotaram). Recolhemos na rua, apareceram em casa e enfim, foram ficando e fomos amando um a um. Aos que se incomodam, não estou fazendo uma comparação entre um ser humano e um bichinho de estimação: estou falando sobre encontro, carinho e acima de tudo, amor. E o amor vale para tudo.

Eu e Gisele tentamos sim ter filhos biológicos. Foram duas videolaparoscopias para tratar endometriose, analisamos a possibilidade de que eu passasse por uma cirurgia e ainda recorremos à inseminação artificial. Ao mesmo tempo que buscamos auxílio médico, entramos com toda a papelada no Fórum para buscar a adoção. Mesmo que “engravidássemos”, a decisão de adotar já estava tomada.

Na quarta tentativa frustrada da inseminação, acabei desabando. Lembro que mal consegui deixar a clínica e estava chorando já no elevador. Foi difícil, mas decidimos por não fazer mais nenhum procedimento. O dinheiro havia acabado e a estrutura psicológica estava em frangalhos diante de tudo o que aquilo envolvia: remédios, hormônios, visitas diárias a médico, estresse, dúvida, medo e no fim, negação.

Aí nos agarramos ao processo de adoção. Mas também é complicado se agarrar a isso e contar os dias. A Justiça é lenta, os processos para perda de pátrio poder para que crianças sejam adotadas é ainda mais moroso e tudo se arrasta. Somente um ano depois que demos entrada na documentação é que fomos chamados para um curso de dois dias. E somente depois de quatro entrevistas realizadas ao longo de mais um ano é que estaríamos aptos para entrar na fila. Sim, percorremos todo esse caminho apenas para entrar na fila.

Uma coisa que ocorreu naturalmente foi que deixamos as coisas acontecerem. Não digo que paramos de sofrer, mas paramos de pensar no assunto e, mesmo automaticamente, deixamos de conversar muito sobre o tema. Entramos em um casulo e esperamos. Nada de comprar peças de roupas, montar quarto de criança ou manter uma expectativa parecida.

Foram dois anos e meio de processo, sendo que apenas um mês na fila. Não esperávamos nada quando fomos chamados ao Fórum para “assinar os documentos de citação”. Fomos então informados da existência da Luísa e questionados se queríamos conhecê-la. Foi uma surpresa que até hoje me faz sentir as pernas tremerem.

No caso da Luísa, foi e ainda é uma sensação de uma intensidade que não consigo explicar. Já contei sobre os meus medos quando ficamos sabendo de sua existência, mas nos poucos metros que percorremos dentro do abrigo até encontrá-la, já sabíamos que era nossa, que a amaríamos acima de qualquer coisa. É imediato, como se um botão no nosso coração fosse acionado e pronto: você já está transbordando de amor por aquela pessoinha. Talvez esse amor estivesse sendo cultivado ao longo dos dois anos e meio que esperamos e então “desabrochou”. Pode até ser…. Mas é estranho: pela manhã você sequer sabe que uma pessoa existe e durante a tarde, tem a certeza de que ela é a coisa mais valiosa de sua vida.

Vejo hoje a Luísa correndo no jardim, se divertindo e sorrindo a cada vez que nos vê, e percebo como tudo foi mágico. São três almas que se encontraram pela negação. No caso meu e da Gisele, pela negação de uma gestação habitual. No caso da Luísa, por uma negação de amor e carinho nos primeiros dias de sua existência.

Saímos lá do interior do estado de Minas Gerais, deixamos toda a nossa família, sofremos, choramos, sorrimos, esperamos, nos frustramos e mesmo assim achamos nosso bebê a mil quilômetros de distância. Quantos milhares estão na fila, quantos milhões vivem em todo o planeta e, mesmo assim, esse encontro aconteceu.

E se foi um sofrimento que providenciou esse nosso encontro, hoje ele deu lugar ao amor imensurável. A gente não sofre mais por não ter passado por uma gestação habitual. A gravidez do coração é tão boa, tão intensa e recompensadora que fica piegas demais ficar explicando. Para quem ainda pensa sobre adoção: eu recomendo.

Quando recordo de toda essa trajetória e sou recebido por um sorriso da Luísa, tenho uma grande certeza na vida:  realmente existe “O Cara” lá em cima.

E Ele gosta muito de nós.

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Comentários

  1. Karla Molina disse:

    Gi e Fabrício… Adoro ler sobre a princesa Luísa. O amor não tem medida, principalmente quando se trata de filhos, biológicos ou de coração. Ser pai e mãe é a melhor coisa que já inventaram… É padecer no paraíso de sorrisos e olhares. Beijos meus queridos, tudo de lindo para vocês

    1. Fabricio disse:

      Ow Karlinha.. Que bom que é uma das leitoras.. É a melhor coisa mesmo que inventaram.. A Lúísa mudou muito nosso vida – e sempre para melhor.. Um grande beijo a todos aí…

  2. jorge aprigio disse:

    Desculpe-me por invadir essa condição tão apaixonante! Obrigado por descrever de forma tão profunda e tão rica em sensibilidade o amor verdadeiro! É contagiante! Um abraço fraterno nessa família iluminada.

    1. Fabricio disse:

      Oi amigo Jorge.. Obrigado pelas suas palavras tão carinhosas.. Fico muito feliz. Tento colocar para fora o que passamos com a chegada da Luísa, que foi algo que mudou nossas vidas.. Grande abraço amigo…

      1. Billybob disse:

        Good to find an expert who knows what he’s talikng about!

  3. rosangela disse:

    Nossa chorei com sua história, e sei que tomei o caminho certo estou no processo de adoção no momento aguardando a entrevista com a assistente social, que inspiração é muito bom saber que a espera ser certa, amor não vai faltar.Felicidades a família.

    1. Fabricio disse:

      Oi Rosangela.. Sim, tenho certeza de que amor não faltará.. A espera foi difícil – sabe disso – mas valeu cada segundo… As entrevistas e o curso foram muito importantes para compreender melhor como funciona todo esse processo… Aqui no site tem a editoria com alguns dos textos que contam como foi esse nosso caminho….http://diariodopapai.com.br/wp/category/adocao/

      Grande beijoooo

      1. Paula disse:

        Fabricio, seu site é fantástico! A histórias sobre a Luísa matam qualquer mãe de chorar! Mas me ajudam muito a enfrentar as angústias, tristezas, medos, ansiedades e esperanças que envolvem todo esse processo pensado por Deus para nossa família. Obrigada por compartilhar. Deus abençoe sua família.

        1. Fabrício Escandiuzzi disse:

          Que que gostou Paula.. fico muito feliz… sempre que precisar, pode contar. Esse processo é demorado, angustiante e sofrido, mas vale por cada segundo de espera…
          Grande Beijo…

        2. Fabrício Escandiuzzi disse:

          Obrigado Paulinha.. beijo a você e sua família

  4. PLA disse:

    Que história Linda da Luísa, mas Deus é tão bom que uniu vocês, na verdade vocês já estavam destinados. Que ele continue abençoando essa Família e que vocês sejam muito Felizes.
    *_*

  5. Adriane disse:

    Bom dia,
    Linda historia de encontro de almas.
    Sou mae de um casal. Mas tenho muita vontade de adotar. Estou lendo a respeito. E a cada dia, tenho certeza desse sentimento.
    Devido ao erro cirurgico, no meu segundo parto. Nao posso ter mais filhos biologicos. Mas, nada impede de adotar.
    Entreguei nas maos de Deus!
    Abraços.

    1. Fabrício Escandiuzzi disse:

      Que bom que gostou.. Fico muito feliz. Adotar é uma sensação fantástica, algo incrível. Não tivemos filhos biológicos… E já penso, com sinceridade, em uma segunda adoção..
      Beijo a você e sua família.. Pense com carinho, vale a pena