Adoção: entrega consciente também é ato de amor

Adoção lUisa

 

Era o quinto ou sexto livro de historinhas que líamos para a Luísa naquela noite. Ela mexia, remexia, nos interrompia, ria, pedia para ver as imagens a cada duas páginas e relutava em dormir. O sono venceu a mamãe, que se esborrachou no colchão ao lado, mas a pequena ainda gargalhava. Por fim, enquanto eu lia pela terceira vez o livro do Tatu Balão, Luísa se rendeu.

Olhei para aquela criança ativa e toda sorridente e pensei mais uma vez em como o tempo passa rápido. A nossa historinha começou há exatos três anos: estávamos nós comemorando a chegada da Luísa, então um bebê de vinte e poucos dias aparentando estar assustado com tudo ao redor. Recordo como se fosse ontem de vários dos detalhes daquela semana maluca, onde tudo aconteceu ao mesmo tempo: conhecemos nossa pequena, tivemos três dias para preparar tudo até que, numa sexta-feira, chegamos com ela no colo em nossa casa. Nem vou entrar em mais detalhes, quem quiser se recordar como tudo ocorreu pode clicar aqui.

Tenho pensado muito sobre todo esse tempo e outro dia desses estávamos brincando na praia quando Gisele fez uma observação.

_ Como pode uma pessoa abandonar um filho? Como isso é possível?

Ao longo desses últimos anos tive sentimentos complexas e bastante distintos a esta pergunta. Atualmente resumo tudo a três sensações.

A primeira delas foi a revolta. No início ficava sofrendo e me indagando como teriam sido as primeiras semanas da Luísa. Não me conformava em pensar nela na maternidade ou no abrigo sem amor e carinho de uma família. O mundo não lhe deu boas vindas, pensava. Isso me revoltava muito. Me dava um nó no estômago saber que ela foi deixada ao léu, a mercê de juízes, papéis e fila de adoção.

O tempo foi passando e acabei compreendendo a situação. Passei a entender que a genitora, ou dona da barriga onde Luísa se desenvolveu por um tempo, não tinha condições para cuidar dela. E passei a perceber que entregá-la para adoção era uma decisão que precisava ser respeitada. A compreensão foi o segundo sentimento.

Se hoje Luísa brinca, corre com a molecada na rua, conversa sobre tudo e até fica furiosa por não ter um martelo da Minnie para me ajudar em alguns consertos, isso se deve a este ato, a essa entrega. Essa entrega permitiu esse encontro de almas, que é como chamo a adoção. Por isso é tão importante que as politicas publicas no Brasil sejam direcionadas para incentivar essas atitudes. Entregar uma criança para adoção não é um crime, não merece condenação e é acima de tudo uma opção para aquelas pessoas que não se acham na condição de assumir tamanha responsabilidade.

A partir do momento que temos preconceito com isso, ou que falamos sobre adoção abordando apenas a demora da Justiça ou o tamanho da fila, estamos contribuindo para que recém-nascidos sejam colocados em caixas de sapato na rua ou que crianças permaneçam três ou quatro anos em abrigos, sem família, amor e carinho.

Quando a entrega é incentivada, estamos agilizando a questão da Justiça e trazendo mais alegria para famílias e crianças. Só que enquanto a sociedade – e nós mesmos – julgar quem faz isso, nada vai andar.

Eu tive preconceito. Tive raiva e revolta, não conseguia entender. O tempo foi passando e então compreendi.

A gratidão é o terceiro sentimento.

Sou grato. Muito grato por aquela pessoa ter tomado essa decisão. Decisão que deve ter sido difícil, dolorosa, mas que trouxe felicidade a muitas pessoas. Isso não significa que eu queira saber quem é, que queira manter contato ou algo parecido. Nas minhas orações, a agradeço pelo ato. E só. Ponto final.

Isso faz parte da historinha da Luisa. Uma menina cheia de luz, com os cabelos cacheados e olhos de jaboticaba que chegou e logo virou a dona de nossos corações.

Quando a vejo brava porque não tem um martelo ou então, mesmo morto de sono, tenho que contar a mesma história da Branca de Neve pela oitava vez seguida, busco agradecer o que estou vivendo.

São pequenos momentos como esses – as vezes muito curtos – que nos tornam mais felizes e gratos por tudo o que temos e passamos nessa vida.

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