Desafios e lições após o “Adoção na Passarela”

O tema Adoção veio à tona com tudo na última semana. Não pelos meios que nós que trabalhamos com o assunto esperávamos, como por exemplo a chegada do Dia Nacional da Adoção ou novas e sonhadas possibilidades para as milhares de crianças que esperam por famílias em abrigos espalhados pelo Brasil afora. O assunto ganhou redes sociais e gerou muitos debates devido ao polêmico evento Adoção na Passarela, realizado em um shopping center do Mato Grosso.

Foto: OAB-MT

Críticas daqui, notas dali, acusação de abuso daqui, defesa de outro lado, uns falam em exagero da mídia, outros comparam o caso com crianças expostas como escravas ou animais em leilão (reportagem da BBC aqui). A divulgação da adoção tardia ficou em segundo plano, pois reportagens em sites e emissoras de televisão focaram o evento. Todo mundo já falou e deu o seu pitaco sobre o tema.

Conheço o trabalho da entidade promotora, extremamente engajada no tema. Também conheço muitas das entidades que condenaram a ação (inclusive faço parte de uma delas, a Rede Nacional da Primeira Infância). Em comum, todas são prioritariamente interessas no bem estar das crianças.

Na realidade, tenho a certeza de que a Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (Ampara) esteve repleta de boas intenções, mas percebo que não mensurou a possibilidade de que o evento fosse criticado pelas circunstâncias que o cercavam: realizado em um shopping, o império do consumismo, a exposição das crianças e principalmente, a velocidade que críticas e “julgamentos” explodem em redes sociais. Resumindo, não teve uma análise de prós e contras ou uma assessoria de comunicação que a aconselhasse sobre os riscos (claro, estou vendendo o peixe para a minha profissão).

Poderia ser realizada outra ação para falar sobre a adoção tardia, como um piquenique, um show musical ou um ato de contação de histórias com as crianças. Poderia também ter sido realizado um pequeno projeto um pouco mais amplo, com curso para essas crianças. Poderia ser de maquiagem, de fotografia, customização de roupas. Tudo isso para que elas aprendessem uma profissão ou atividade e então montassem o próprio desfile. O tema adoção estaria incluso. Do jeito que foi realizado, acabou se tornando uma presa fácil para criticas.

Houve o erro na condução, mas acho importante que a adoção tardia tenha chamado a atenção, mesmo que por esse viés.

 

Saiba tudo sobre o processo de adoção. É grátis e não precisa cadastro.

 

Há milhares de pretendentes e milhares de crianças à espera da adoção, segundo os dados do Cadastro Nacional de Adoção mantido pelo Conselho Nacional de Justiça. Todos nós sabemos que a conta não fecha. A maioria das pessoas que quer adotar ainda opta por aquelas menores, de quatro anos ou menos. Isso não é uma crítica, é uma constatação. Mas há também os absurdos, como as transformar a cor da pele em objeto de escolha. Foi horrível quando participei da última entrevista antes da chegada da Luísa e apontei para o que eu “queria” eu que eu ”não queria” em um filho. Conto como foi a entrevista neste post.

Me senti um canalha.

Não somos altruístas. Quem adota não está fazendo o bem ou plantando o amor no mundo como mostram as propagandas sobre o tema. Até hoje odeio quando me parabenizam pelo “ato de adotar’.

Fiz isso por mim. Fiz isso pela Gi. A Luísa foi uma consequência. Uma consequência apaixonante e que amo de paixão com todas as minhas forças, é verdade. Mas no princípio pensávamos em nossa necessidade de sermos pais. Ela foi o “plus”…

Focamos em nosso sonho, na nossa necessidade de formar uma família e preencher um vazio na alma. São poucas as pessoas que pensam na adoção tardia e nas crianças que terão que ir para a rua quando completarem 18 anos. Sem cenário, sem perspectiva de futuro, e o que é pior: sem família e sem amor….

Por isso, apesar de todos os erros e acertos, foi importante essa questão da adoção tardia vir à tona. A instituição cumpriu seu papel. Errou? Errou. Mas não deve ser crucificada e execrada por isso. Acho que estamos diante de uma oportunidade…

O shopping center que abrigou o evento, as entidades públicas e da sociedade civil que participaram ou criticaram, nós, que defendemos o tema, devemos seguir em frente. É hora de aproveitar o momento e buscar um parceria para realização de cursos e oficinas que possam dar uma oportunidade de profissão para essas crianças cuja adoção é mais difícil. Pode ser na área de jornalismo, moda, marketing, vendas (tem o shopping ali, ó), tecnologia, enfim… um leque gigantesco de possibilidade.

E importante sim pensar no tema adoção tardia e por que não, em parcerias para darmos um futuro à essas crianças.

No que depender de mim e do Diário do Papai, estamos à disposição.

You may also like...