Estamos realmente prontos para adotar uma criança?

Costumo sempre afirmar que a adoção, antes mesmo de ser um encontro de almas,é uma via de mão de dupla. Por um lado, crianças e adolescentes, excluídos, sem famílias e sem amor, necessitando de um lar. De outro, pretendentes buscando realizar o sonho da maternidade/paternidade e na maioria das vezes, preencher um vazio em suas vidas. Adotar uma criança é o caminho. Mas, estamos prontos?

adotar crianças

 

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Não podemos ser hipócritas e encher o peito para dizer que estamos loucos para amar, que a adoção é um ato de extrema benevolência e acharmos que somos as super pessoas por que adotamos uma criança. Adotamos porque queríamos um filho, adotamos porque tínhamos um sonho, seja por que não conseguimos das maneiras “convencionais” ou não sei por que tantos outros motivos.

Não somos altruístas. Pelo contrário. Escolhemos ser pais, escolhemos uma criança dentro das possibilidades que temos (e temos que levar em conta critérios sociais, econômicos e psicológicos para esta escolha). E da mesma maneira que adotar não nos torna as melhores pessoas do mundo, escolher esses critérios no momento de preencher o perfil também não significa que somos monstros.

Falo tudo isso pois essa semana as redes sociais estiveram repletas de debates depois que um casal de pretendentes fez um desabafo contra a demora do Judiciário em analisar os processos de adoção (confira nosso guia). A moça estava há menos de um ano na fila e suas críticas, na minha opinião , soaram muito exageradas. Mas há um lado positivo no questionamento: ela abriu o debate.

Quem está na fila, ou ainda entrou com a documentação junto a sua Comarca, precisa ter a consciência de que o primeiro ponto, o primeiro interesse a ser avaliado por assistentes sociais e psicólogos é o da criança. Sempre. Não adianta a pessoa achar que está pronta para adotar, querer esse ou aquele “pacotinho”, se não há condições para tal.

Adotar criança não preenche vazio da alma

Costumavam dizer que criança não salva casamento. Eu costumo afirmar que criança não preenche vazio em nossa alma. Criança não é para dar resposta à sociedade. Criança não é para mostrar que somos bonzinhos, filhos de Deus que fazem o bem. Temos que estar prontos.

Eu por exemplo, não estava pronto para adotar uma criança de cinco, seis anos, mal tinha condições financeiras para suportar os gastos de uma criança que requeresse maiores cuidados médicos. Mesmo assim, para tentar andar o processo, colocamos o perfil aberto. A adoção da Luísa foi um daqueles casos de um em cada mil, e sou grato. Veio um bebê de 20 dias e, mesmo assim, entrei em pânico como já contei aqui.

O que deu sossego para nosso coração neste tempo todo de espera – dois anos e meio – foi o curso de habilitação realizado pelo Fórum de Florianópolis. Muito esclarecedor e realizado por pessoas que se desdobram na função apesar da falta de estrutura (isso é para o post da semana que vem, prometo). Aprendemos que o sonho era nosso, que não éramos os reis da cocada porque queríamos adotar e percebemos que não era aquele o único caminho para resolver a questão do “vazio da alma” que buscávamos preencher.

Adotei, mas não sou especialista

O fato de ter adotado não me torna um “especialista em adoção”. Posso passar apenas o que senti e o que aprendi nessa longa jornada. Ou melhor, venho aprendendo. Cada um reage de uma maneira.

Sou bem cético, as vezes crítico com alguns procedimentos: não gosto de quartos montados e muito menos de ensaios fotográficos retratando a espera da adoção (sou jornalista, fotógrafo, e tenho muitos amigos que fazem ou produzem esse material, mas respeito). Pretendentes que já aguardam uma criança com um nome já definido, então, nem pensar em concordar com isso (a não ser que ela se chame Feissebuksson, por exemplo).

O foco da adoção não somos nós, pretendentes, são as crianças. E as crianças têm uma história que deve ser respeitada. Acho que é esse é o primeiro passo, o pulo do gato para quem busca adotar criança. Como bem disse uma leitora do grupo de discussão do portal Adoção Brasil, do qual participo, “o objetivo da adoção é dar família às crianças que não a possuem, e não dar uma criança a uma família que não a tem”.

Pode soar estranho, mas é o básico. Desejo a todos que estão na fila para adotar criança que o telefone toque o mais rápido possível, que seus sonhos se realizem. Mas desejo também que todos estejam prontos e estudando para receber o bem mais valioso de suas vidas.

E as críticas e esculhambações em redes sociais não te farão avançar mais rápido na fila.

 

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