Libertem as crianças: brincar ao ar livre faz bem para pais e filhos

Papai andava sumido ultimamente. O retorno às atividades profissionais de uma forma, digamos, bem mais intensa, me fez correr de um lado para outro sem tempo para nada. Corre daqui, corre dali e comecei a sentir falta de uma das coisas mais intensas que tenho vivido nestes três anos que exerço a função de papai em tempo integral: brincar com a Luísa.

 

Brincar é alegria

Sim, você leu certo. Estava sentindo falta de ir ao parquinho, descer no escorregador, cantar, dançar, brincar de pega-pega e rolar na grama. Nada de assistir vídeos e jogar games por tablets, celulares ou ficar horas enfiado em brinquedos de shopping centers. O que estava sentindo falta era de atividades ao ar livre.

Dia desses Luísa cismou que não queria ir para creche. Queria ficar em casa, sem ter hora para nada. Queria correr pelo jardim. Como estava com as demandas em ordem, entrei na dela. Deixei que ela “matasse” a creche e estipulei o que chamamos de “combinação” (ainda hoje não gosto de falar em regras): nada de tablet ou televisão.

Enchemos juntos o pneu da bicicleta e saímos pedalando para ver a ressaca na praia. Tomamos caldo de cana, passeamos pela rua de casa, colhemos amoras e pitangas e cuidamos da horta. Me transformei em lobo mau e assoprei a casinha da Luísa umas 200 vezes. Ficamos cheios de coceira nas pernas e braços depois de rolar na grama e precisamos tomar banho correndo.

Pensei em tantas e tantas famílias que correm com filhos aqui e ali e como isso é capaz de afastar as crianças de sua essência, que é… ser apenas uma criança. Aula o dia inteiro e, quando não tem horário estendido na escola ou creche, a van leva os pequenos para a aula de ballett, natação, judô ou línguas. No final da noite, papai e mamãe cansados, jantar, banho e o que sobra de contato da criança com a família? Não é culpa dos pais, às vezes não há o que fazer.

É a nossa sociedade que está assim: a rotina, os compromissos profissionais, a busca pela segurança financeira, os avanços tecnológicos e também a comodidade que isso nos traz, tudo isso contribuiu para que as crianças perdessem o direito de brincar.

Brincar na natureza é aprendizado

“A criança tem atividade motora intensa e brincar ao ar livre permite maior movimentação corporal auxiliando na estruturação do sistema muscular, na aquisição do equilíbrio e destreza corporal. A criança que brinca em contato com a natureza aprende a correr riscos e medi-los, como por exemplo no desafio de subir uma árvore”, afirma a educadora Ana Lúcia Machado, citando benefícios mil como evitat a deficiêcia de Vitamina D e até a prevenção a miopia, por exemplo. “Em espaços amplos, abertos e com iluminação natural, a criança exercita os músculos oculares ao olhar para objetos grandes e ao longe, permite que os olhos siga a linha vertical, horizontal e de profundidade, prevenindo o encurtamento dos músculos. Mais tempo ao ar livre regula hormônios, diminui o cortisol (hormônio do stress), reduz a agressividade, alivia a ansiedade e a hiperatividade”.

Presidiários tem mais tempo ao ar livre do que crianças

Ana, educadora autora de vários materiais sobre a conexão entre criança e natureza, publicou excelente artigo sobre o tema em seu site, o Educando Tudo Muda. Ela cita uma pesquisa onde dois terços dos pais admitem que seus filhos brincam menos ao ar livre do que a sua própria geração.A maioria concorda que é preciso reequilibrar a rotina das crianças para fazer com que as brincadeiras que trazem benefícios para o crescimento possam acontecer. Machado ainda relembrou uma polêmica campanha da Unilever, chamada “Libertem as crianças” e que compara o tempo de banho de sol dos presidiários ao tempo que as crianças brincam ao ar livre.

 

“A falta de contato e do brincar livre na natureza empobrece o repertório da criança, reduz estímulos sensoriais e registros no próprio corpo da criança, o que mais tarde influenciará na capacidade de aprendizagem, na capacidade criativa, e auto regulação do indivíduo”, afirma.

Naquele dia, que estava contando no início do texto, não assistimos televisão. Nos divertimos muito, brincamos, esperamos mamãe voltar do trabalho e comemoramos a chegada da primavera. Percebi o quanto o brincar e, principalmente, o brincar em contato com a natureza é ser revigorante. Vi que não era Luísa quem queria faltar à creche para ficar brincando em casa: era o papai que precisava brincar um pouco.

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