Como fazer um Pré-natal em três dias

 Como fazer um Pré-natal em três dias?

Muitos homens participam de cursos pré-natal e se preparam por nove meses junto com as esposas para a chegada dos filhos. Se não fazem isso, deveriam fazer o quanto antes. Nós não tivemos essa chance. Foram apenas 72 horas para nos prepararmos. E muitos me perguntam: como fazer um Pré-natal em três dias?

Eu tive muito medo de pegar Luísa no colo no dia em que a conheci.  Estava tão assustado, sem saber o que fazer, que deixei essa tarefa quase que exclusivamente para a Gisele.

Assim que entramos no abrigo e a assistente nos fez encontrar nosso bebê, eu petrifiquei. Parecia sentir o suor correr pelo rosto e pelas costas, a minha mão tremia e minha boca secou de uma hora para outra. Como assim? E agora? Olhei para a fragilidade daquela criança, uma mãozinha minúscula, um corpo franzino. Só tinha olhos e cabelo. Como vou segurar isso?

Uma das assistentes sugeriu que era hora do banho da Luísa (um rápido teste desses propostos por psicólogos). Com todo desembaraço, Gisele fez tudo certinho, com a ajuda de uma cuidadora.

E eu ali na porta, permanecia imóvel. Cheguei a falar que estava resfriado ( e estava mesmo) e que não iria pegá-la. Diante da insistência e já todo molhado de tanto suar, estiquei os dois braços para a frente como se estivesse fazendo uma “caminha”.

Gisele riu muito, mas percebeu meu pânico. Colocou carinhosamente a Luísa em meus braços. E minha sensação mudou de repente.

Fiquei ainda mais assustado.

Ficamos ali no abrigo por quase duas horas. É uma coisa estranha você ir a um local, conhecer sua filha mas ter que ir embora e deixá-la por lá. A Justiça ainda precisava liberar a documentação para que Luísa fosse para sua nova casa. Pelos próximos dias, estavam liberadas visitas diárias no abrigo.

Só fui ligar para minha mãe e meu pai para contar sobre sua primeira neta quando saí da instituição de menores. Só mais tarde, quando cheguei em casa, é que fui me dar conta que a partir daquele dia eu era “papai”. Aí liguei para todo mundo que conhecia, contei para a vizinhança e chorei…

Era uma terça-feira e a previsão da Vara da Infância e Juventude era a de que Luísa fosse para casa apenas na semana seguinte. Como não tínhamos expectativas de que uma criança aparecesse tão cedo, não tínhamos absolutamente nada em casa. Nem uma peça de roupa, nem uma fralda, nada, nada…

E mesmo assim não compramos praticamente nada. No mesmo dia da notícia de que a Luísa era nossa, começaram a chegar amigos com presentes, outros enviaram sacolas e sacolas de roupas de criança, teve quem emprestou carrinho, banheira, trocador, bebê conforto e até mamadeiras. Foi uma correria para recolher tudo o que nos mandavam.

Uma outra “coincidência” do destino era a de que minha sogra e a avó da Gisele chegariam no dia seguinte, quarta-feira. A passagem delas já havia sido comprada há mais de um mês, quando sequer sabíamos que teríamos uma filha. Elas nos ajudaram nessa preparação maluca, uma corrida contra o tempo.

Fomos conciliando a arrumação das coisas com as visitas ao abrigo, ao mesmo tempo em que domávamos a ansiedade. Já esperava que o bebê fosse chegar no início da outra semana, quando o telefone tocou às 17 horas da sexta-feira.

_ Vocês tem que vir ao Fórum assinar um documento ainda hoje. E aí podem levar a Luísa para casa.

Eu me preparava para uma entrada ao vivo para falar sobre trânsito. Larguei tudo e corri para o Fórum, levando a roupa que Gisele tinha escolhido para “o momento”. Do outro lado da cidade, a mamãe deixou o trabalho e fez o mesmo.

Chegando no abrigo, no começo da noite, Luísa nos aguardava toda cheirosa, de banho tomado e com uma roupinha nova, presente das cuidadoras que tanto carinho deram a ela por vários dias. Mais tarde descobri que a fitinha branca no cabelo foi retirada de uma boneca, já que nada cabia na cabecinha dela. A peça foi devidamente emoldurada e está no quarto até hoje.

Os funcionários do abrigo ainda pediram que a gente levasse o carrinho de bebê que ela dormia para que a mudança não fosse tão brusca. Estávamos sem berço ainda, e aquele carrinho serviu por muito tempo.

Resumindo, foram pouco mais de 72 horas entre o dia que conhecemos a Luísa até o momento em que ela entrou em seu novo lar. E a história estava agora apenas começando.

O nosso furacãozinho, como costumo dizer, fez com que a gente passasse por um maluco “pré natal” intensivo de três dias.  Esse foi o tempo que tivemos para providenciar o máximo possível de coisas para dar um mínimo de conforto para aquele bebê de três semanas.

E como tivemos ajuda de amigos nessa empreitada. Hoje vejo como Luísa despertou o carinho das pessoas desde seus primeiros dias de vida. Agradeço de todo o coração a cada um deles, que mesmo de longe, tantas energias positivas mandaram.

Meu medo de segurá-la nos braços também havia acabado. Minha entrada ao vivo para falar de trânsito naquele sexta não aconteceu. E ali no abrigo, em meio a tanta alegria e prontos para ir para casa com nossa tão desejada e já amada filha, meu pensamento era um só:

_ E agora? Como eu monto esse bebê conforto no carro?

 

roupinha

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Comentários

  1. oraida maria santos escandiussi disse:

    Vocês nunca esquecerão. destas abençoadas 72 horas.Nem nós, nem ninguém que viveu isto com vocês .É Deus agindo…e claro mostrando…Amor

  2. Annie disse:

    estou devorando o site/diário de vcs!!! obrigada por compartilhar!!!

    1. Fabrício Escandiuzzi disse:

      Poxa, que legal, ficamos muito felizes… Grande beijo e obrigado por participar…

  3. Ana Paula Ribeiro disse:

    Maravilhosa historia de amor, dedicação, aprendizado e entrega, filho causa tudo isso mesmo, um misto de emoções, sejam eles, biológicos ou adotados, a emoção é a mesma! Parabéns ao casal pela iniciativa, sucesso, paciência e muito amor nas tantas horas que ainda viram na vida de vocês!

    1. Fabricio disse:

      Oi Ana Paula
      Nossa, obrigado pelo teu carinho…

      beijão