Duas semanas com a vovó

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Luísa entrou em casa, correu para o escritório e em seguida voltou desapontada, com uma cara de surpresa e as palminhas das mãos para cima, sinalizando que não havia encontrado ninguém.  Assim que perguntei onde estava a vovó, recebi como resposta um “beicinho” e um “nô se” (algo parecido com não sei).

Foram duas semanas de convívio e Luísa já havia transformado a vovó Neusa em sua grande amiga. As duas passearam de mãos dadas no shopping e pelas ruas do centro de Florianópolis, brincaram no jardim e a todo instante a pequena gritava pela “voai” (uma mistura das sílabas de vovó e papai).  Quando ela chegou, não houve mais do que dez minutos de estranhamento e pronto: a pequena estava entregue aos carinhos da avó.

Fiquei esses dias observando as duas e vendo como é bom esse contato com a família. Luísa riu, gargalhou, gritou, brincou, chegou até a soltar umas palavras a mais durante sua estadia. Cada vez que ia trocar a roupa no andar de cima para ir dormir, a pequena pedia pela presença da avó. Nem a chuva insistente nestas últimas semanas – que nos deixou presos em casa – foi capaz de diminuir ou comprometer o encantamento de uma com outra.

E não foi só a pequena que se divertiu: vez ou outra ainda flagrei a vovó sozinha cantando as musiquinhas dos comerciais e dos programas dos canais infantis que a Luísa assiste. Ou então rindo com os desenhos da Peppa e se irritando com as músicas dos Backyardigans e do HI 5 (um programa australiano bem tosco, uma espécie de mistura  grupos como Menudos e Spice Girls cantando músicas da Xuxa em um cenário horroroso).

Criei esse espaço para poder fazer com que nossa família acompanhasse o crescimento da Luísa mesmo a distância. Mas é duro ficar tão longe e à mercê dos preços das companhias aéreas, ultimamente nada amigáveis. Meus pais estiveram com ela apenas duas ou três vezes. Sempre bate uma vontade que eles estivessem assistindo isso, ou que estivessem passeando com a neta.

A última vez que fomos a Minas Gerais para visitar vovô, vovós e a bisavó foi em janeiro. Se oito meses é muito tempo para nós, imagine para uma criança. Muito tempo, muito desenvolvimento e muito avanço. Fico triste com isso. Vejo vídeos e fotos daquela época e percebo o quanto as pessoas que gostamos estão “perdendo” deste crescimento. Queria que eles tivessem mais contato, que presenciassem mais da evolução e do crescimento da neta.

Esse crescimento a distância é inevitável, já que nossa vida é aqui em Santa Catarina. Assim como também foi inevitável a despedida, o dia que a vovó precisou voltar para Minas. No primeiro instante falamos para Luísa que ela iria embora. A primeira reação foi um gesticular da cabeça, como se estivesse dizendo um sonoro não.  Então, uns quatro dias antes do retorno, Gisele começou a dizer carinhosamente que a vovó teria que ir, mas que retornaria em breve.

Isso faz parte da vida. A despedida, mesmo o “até logo” não é algo agradável: nos deixa com os olhos cheios d’água, com um nó no peito e na garganta e com aquela sensação de que estamos sozinhos novamente. Chegamos ao aeroporto apreensivos sobre qual seria a reação do bebê. Nos primeiros contatos com a família ela era muito pequenina, não entendia o certo o que estava acontecendo. Desta vez era diferente.

E mais uma vez, ela nos surpreendeu. Neusa parou diante da sala de embarque do aeroporto e se despediu de nós. No meu colo, Luísa fez um tchauzinho com a mão direita, mandou um beijo carinhoso no melhor estilo Jô Soares e sorriu. Entendeu que era a hora da vovó ir embora. E sorriu muito, como que agradecendo pelo carinho das últimas duas semanas.

Só que mesmo assim, a primeira coisa que fez ao chegarmos em casa foi procurar pela avó.  Todos os dias, quando mencionamos ou perguntamos à Luísa sobre a vovó, ela gesticula e diz “nô sê”. Mas em seguida sorri e seus olhos brilham ainda mais.

Tenho cá a impressão de que além de toda dose de amor que ganhou esses dias, acabou aprendendo uma coisa nova em sua vidinha.

Luísa descobriu o que é a saudade

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