Como são realizadas as entrevistas para adoção?

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_ Vocês aceitam uma criança com problema no braço?

_ E com problema nas pernas?

_ Aceitam uma criança com sopro no coração?

_ Algum tipo de deficiência mental pode ser avaliada por vocês?

_ E a cor que preferem?

_ Qual o tipo de cabelo?

_ A criança pode ser estrábica?

 

Pensei estar comprando um carro ou uma nova televisão para a sala e me senti muito mal quando realizei a última das quatro entrevistas comandadas por uma assistente social. Como assim nos pergunta tudo isso? Queremos uma criança e ponto.

O dado triste é que mais de 80% dos candidatos à adoção apontam exigências restritivas. A grande maioria quer crianças brancas, do sexo feminino, sem irmãos e com idade inferior a três anos. Mais da metade ainda se recusa a adotar alguém cujos pais biológicos tenham tido envolvimento com entorpecentes. Quase 90% dos menores disponíveis para adoção se enquadram neste quesito: familiares com histórico de uso de drogas ou álcool.

A nossa busca por um filho havia começado anos antes e depois dessa entrevista achei que se arrastaria por muito mais tempo. Pensamos na criança e abrimos o leque o máximo que conseguimos. Não iríamos, por exemplo, adotar uma criança com problemas de saúde grave. Não por ela, mas porque nós não tínhamos a condição financeira e a disponibilidade que um filho assim necessitaria.

Para minha surpresa, o processo de adoção não foi tão demorado como de outras pessoas que conheço – 2 anos e meio. Mas é extenuante. Massacrante. E a tão desejada entrada no Cadastro Cuida, a fila de adoção, parece levar uma eternidade.

Antes das entrevistas, um curso realizado em dois dias. Ali é explicado como funciona o processo de adoção de uma criança pela legislação brasileira. Ficamos sabendo que são dois tipos de processos que correm quase que paralelamente: o de destituição de pátrio poder daquelas que são tiradas dos familiares biológicos e recolhidas em instituições públicas e outro processo, o da adoção por si só. Ambos correm em segredo de Justiça.

Também fomos apresentados a uma triste realidade. A quantidade de leis existentes no Brasil permite que uma família que tenha perdido a guarda de crianças por exemplo, por abuso, possa ir recorrendo aqui e ali. Muitas, orientadas pelos advogados, acabam entrando com ações em outras comarcas, o que acaba atrasando os processos.

Os anos passam, os recursos e instrumentos jurídicos pipocam aqui e ali e a criança passa quatro, cinco anos, boa parte da infância e de sua fase de desenvolvimento, dentro de uma instituição para menores.

Mais de um ano se passou entre o curso e a primeira entrevista, realizada em agosto de 2013. A assistente social esteve em nossa casa, viu as instalações e conversou comigo e com Gisele juntos. Depois outras duas entrevistas, separadamente, na sede da Vara da Infância e Juventude. Perguntas básicas sobre idade desejada, se aceitávamos irmãos, como andava nossa vida financeira, qual nosso plano de saúde e o que fazíamos no dia a dia.

A última etapa foi mais uma vez no Fórum e envolveu eu e a Gisele. E aí o bicho pegou com as perguntas mais escabrosas. A assistente sacou um calhamaço enorme de papel e foi preenchendo de acordo com que a gente respondia.  Qual idade, sexo, cabelo, olhos, cor e etc, etc e etc…,  este problema aqui ou aquele problema ali? Não esperava por aquelas questões.

Foi uma entrevista angustiante e cada vez que a assistente fazia as perguntas eu  lembrava da música dos Titãs, O pulso ainda pulsa. Fiquei dias com ela ecoando na minha cabeça.

Acabei por sair do Fórum com uma sensação péssima. Parecia que estava adquirindo um objeto e não uma criança para amar e cuidar. A primeira impressão é a de que eu e a Gisele estávamos decidindo os opcionais de um carro ou de um eletrodoméstico, ou a cor da parede da sala. Fiquei um tempo intrigado com as perguntas e somente hoje eu percebo que estava, no fundo, no fundo, envergonhado com aquilo.

Só depois da chegada da Luísa, serelepe, sadia, meiga e ao mesmo tempo, tão frágil e carente, é que entendi de fato o trabalho hercúleo das assistentes sociais e do pessoal da Justiça.

Por mais que seja moroso, a criança não pode ser entregue com um processo de destituição de guarda ainda em andamento. E por mais que seja doloroso para quem espera, não pode ser deixada com pessoas que pensam estar adquirindo uma boneca ou um carro novo. Já pensou a dor de uma criança ao ser rejeitada e devolvida? Duas vezes? E acreditem, isso existe.

É preciso muito carinho com esses pequenos. E nosso trabalho com a Luísa é mostrar que apesar dela ter chegado ao mundo em condições não lá muito dignas, aqui é sim, um lugar muito legal para se viver.

Com relação ao processos e as perguntas das entrevistas, sempre penso que não compramos uma TV ou um carro novo. E muito menos escolhemos a cor da parede da sala.

Encontramos, sim, o caminho para pegar nosso potinho de ouro no final do arco íris.

 

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Comentários

  1. OraidaMaria Santos Escandiussi disse:

    Estou adorando o Diário do Papai…é pura emoção…Parabéns

  2. oraida maria santos escandiussi disse:

    Adorando o diario do papai…pura emoção

  3. oraida maria santos escandiussi disse:

    Com uma inspiração dessa ….seu Diario é pura emoção e amor…