Sociedade de Pediatra quer proibir funks de MC Diguinho e MC Don Juan. É o caminho?

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) apresentou um pedido junto ao Ministério Público da Infância e Juventude do Estado do Rio de Janeiro. para que algumas músicas de funk tivessem a veiculação proibida. “Só Surubinha de Leve” de MC Diguinho e“Oh Novinha”, de MC Don Juan, são alguns dos funks que se tornaram alvo da SBP.

MC Diguinho e MC Don Juan proibidos

De acordo com a instituição que representa os pediatras, a prevenção contra a apologia ao estupro, contra o estímulo ao consumo precoce de álcool e drogas e contra a banalização do corpo e das relações sexuais são foco da representação junto ao MP. “A entidade está preocupada com a exposição de crianças e adolescentes a produtos culturais (canções, clipes, games, filmes, seriados, etc.), cujo conteúdo pode, na opinião dos especialistas, fragilizar ainda mais o processo de formação e desenvolvimento desse segmento da população brasileira”, assinalou em documento enviado à imprensa.

No entendimento da Sociedade Brasileira de Pediatria, o conteúdo destes funks promovem o estupro, a violência e outros crimes, bem como incitam o desrespeito às mulheres, podendo ser elementos prejudiciais na formação de crianças e adolescentes.

Acesse a representação na íntegra

Os pediatras pedem ainda que sejam adotadas medidas para disciplinar a reprodução de canções, filmes, seriados de TV, comerciais, games e todas as outras formas de produtos culturais, adequando o acesso a cada um em função das características de cada faixa etária (respeitados seus limites cognitivos, intelectuais, emocionais e físicos, dentre outros). Para tanto é solicitada a abertura de Inquérito Civil Público.

De acordo com a entidade, a reprodução desses produtos culturais fere aspectos da legislação, como artigos da Lei 8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), que, entre outros pontos defendem que sejam oferecidas a esse grupo todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.

De modo complementar, o artigo 17 dessa lei determina que cabe à sociedade assegurar a inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.

O interesse da SBP em tratar desse tema, com a ajuda do MP, veio com a polêmica envolvendo a música “Só Surubinha de Leve”, de autoria do MC Diguinho, cujas reações contrárias geradas por diferentes setores levou à retirada da faixa de serviços de veiculação por streaming, dos meios de comunicação e das mídias sociais. Posteriormente, o compositor lançou uma versão alternativa da canção que, no entanto, ainda permanece inadequada na avaliação da Sociedade Brasileira de Pediatria.

“O autor utiliza um ‘jogo de palavras’ de duplo sentido que induz o ouvinte a perceber como ‘normal’ uma série de situações não recomendáveis nas relações em sociedade”, afirma a SBP em sua representação.

“O desrespeito é mais evidente com relação às mulheres, com frases que, de modo direto ou nas entrelinhas, fazem a apologia das violências sexual e emocional e vulgarizam o corpo, sem preocupação com as consequências desses atos’, afirma a presidente da SBP, Luciana Rodrigues Silva. “São ações que influenciam negativamente o conjunto da sociedade e cujo impacto aparece nos indicadores epidemiológicos ou de violência”.

Para a pediatra, a falta de maior rigor na veiculação dessas faixas e outros produtos será percebido de modo mais evidente no futuro. “As crianças e os adolescentes pagarão as consequências pelo descontrole no acesso a produtos culturais inadequados para suas faixas etárias, mas que, pela exposição indevida, moldarão nessas vidas comportamentos aprendidos erroneamente como exemplos a serem seguidos na vida em sociedade”, conclui.

Taca a bebida, depois taca a pica e depois abandona na rua

Para quem não acompanhou a polêmica, a música do MC Diguinho vem sendo alvo de críticas desde que entrou para as playlists virais do Spotify. O hit funk é acusado de depreciar as mulheres na letra, aos tratá-alas como “piranhas”, “putas” e filhas da puta”. O pior ainda é o refrão, o grande causador de mais polêmica: “Taca a bebida, depois taca a pica e depois abandona na rua”, afirma o MC.

O MC fez uma versão ligth, onde substituiu o “taca a pica” pelo “sacrifica” e “malandras e tchucas” substituíram “piranhas e putas”.

Suficiente? Claro que não.

Tenho uma filha e me arrepio ao ouvir isso. Não considero de bom gosto e pronto termos funks proibidos. E olha que ouvimos de tudo aqui em casa. Mas me arrepia muito ouvir falar em “proibição”. As empresas de streaming tem todo o direito de aceitar o material artístico que lhe convém. Mas a proibição por si só em todos os meios de comunicação me soa estranha. O funk, em muitos casos, é uma expressão cultural e artística de uma realidade  – triste, porém real – de nossas periferias. E é ali, no mundo real que está o problema. Não na letra e na música. Ela é o reflexo e não o centro da questão.

Cabe a nós, pais e usuários, selecionarmos o que queremos ouvir e cobrarmos respeito. Protestemos, briguemos e critiquemos. Mas na minha opinião, proibir é perigoso. Muito perigoso.

Enfim, adoro a expressão de que gosto não de discute, se lamenta.

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