Luísa foi para a “quéchi” – Parte 2

Creche da Luísa

Minha mãe sempre conta que quando comecei a ir para a escola, com meus cinco anos de idade, eu vomitava todos os dias. Era a minha rotina.

Me recordo da procura por uma escola. Vagamente lembro de irmos à uma escola do SESC e também ao Colégio Canadá, que ficava próximo do local onde meu pai trabalhava. Lembro que gostei de um colégio que tinha um grande relógio em uma torre e um campo de futebol onde meu tio Hélio jogava. Foi esse o escolhido: o Colégio Municipal Dr. José Vargas de Souza, onde estudei não só a minha pré-escola, mas toda minha vida, de 1982 a 1993.

Tenho lindas recordações dali. Muitos amigos, alguns até que já se foram, professores que eu adorava e um espaço que raramente se vê nos dias de hoje. Lembro até de relances dos meus primeiros dias de aula, pelos pedidos para ir para a sala da tia Sara e do uniforme-jardineira amarelo gema de ovo e uma camisa xadrez por baixo.

Mas não me recordo muito dos vômitos. Lembro de apenas um deles, no pé da minha professora Gisela quando brincávamos em um dos parquinhos do colégio. Mas minha mãe sempre conta que eu não ia para a escola sem antes dar um pulinho no banheiro e enfiar o dedo na garganta.

A Luísa tem sido menos escatológica do que o pai. Adotou um novo ritual assim que arrumo sua mochila de joaninha para levá-la à creche. Nos últimos dias logo que o relógio bate meio dia, ela se deita e afirma que quer “nanar”. Normalmente, entre afirmar que quer nanar e dormir de fato, levamos uma hora entre carinhos, brincadeiras, preguiça e enrolação. Na hora de ir para a creche entretanto, essas preliminares duram menos de cinco minutos.

E lá vou eu arrastando Luísa, o Momô e seu travesseiro. Os resmungos duram todo o trajeto – pouco mais de seis quilômetros. Ela diz que quer nanar, que ir para o mar, que quer o “tatis” (tablet em seu bebenhês). Vale tudo para fugir. O chororô ocorre todos os dias. O interessante é que ela chora mas pula no colo da tia Karina e pára de chorar minutos depois que viro as costas.

Os dois primeiros dias de adaptação foram lindos e superaram nossas expectativas, como contei aqui. Mas na semana seguinte a ficha caiu e nos deparamos com uma Luísa marrenta, briguenta, manhosa e que descontou na mamãe toda a sua ira. Foi difícil. Difícil para a Gisele, que trabalha o dia todo fora e espera ansiosamente por algumas horas com Luísa, lidar com uma rejeição explícita. Foi difícil também para mim ter que lidar com essa rejeição e com a frustração da mamãe. Ela passou a pedir por mim, querer ficar no meu colo o tempo todo, emburrada. E isso foi bem desgastante.

Dias de birra, irritação, teimosias e nada que fazíamos aliviava a situação.

Passamos a ver uma Luisa que não vomitava todos dias, como eu fazia, mas tentava fugir da creche à sua maneira, alegando sono. É um turbilhão de emoções e frustrações que a pequena não sabia lidar – e ainda não sabe. O resultado foi um stress para nós três. Luísa irritada. Mamãe magoada. Papai desgastado.

Quando chegava para deixá-la na sala eis que a pequena dava uma chave de perna em mim, me agarrava com toda a sua força pelo pescoço e berrava: “Qué papaiiiiiii”.

O que fazer nessas horas? Virar a costas e pensar que é para o bem dela? Falar que volto mais tarde e que nunca vou abandoná-la? Argumentar que a tarde vai ser boa e que muitas brincadeiras legais irão acontecer? Dizer que é assim e ela tem que ir para a creche? Tentei de tudo. Nada adiantou. No final das contas, eu não estava conseguindo fazer mais nada sem a Luísa do meu lado. Ela passou a ter receio de ficar só e nem mesmo sentar para comer eu conseguia sem ela pedindo colo ou querendo ficar por perto.

E ver ela pedir para a mamãe sair de perto, ou “dar licença”. Isso foi de cortar o coração.

Foi uma semana que passamos à beira de um ataque de nervos. De repente, um dia ela chegou à creche caminhando comigo, entrou na sala e foi brincar. Sem mais. Espanto. No dia seguinte, entretanto, uma greve de servidores (justa e legítima, como sempre destaquei) nos deixou 15 dias sem creche. Lá vamos nós começar toda a adaptação novamente.

Gisele e eu temos buscado informação sobre o tema. O problema não era com a mãe. Luísa já estava acostumada com sua ausência desde os seis meses de idade. A separação do papai era algo novo e com o qual ela ainda precisava conviver e aceitar.

Acho que li ou tenho lido quase toda a literatura possível e imaginável sobre a questão de creche. E vimos que cada um age de uma maneira, cada pequena criaturinha dessa tem um ritmo para se adaptar à uma nova fase da vida.

A adaptação é também nossa. Confesso que tenho achado muito estranho chegar em casa e estar tudo tão silencioso, não ouvir um grito de papai, uma risada gostosa ou mesmo o barulho inconfundível do chacoalhar do Momô. Mesmo que seja por apenas algumas poucas horas a realidade é nova para mim. Dirigir então, sem minha companheirinha no banco de trás, tem sido muito esquisito.

O silêncio da casa durante as tardes tem me assustado, me deixado melancólico. Dá um aperto no coração, um nó na garganta. Não tenho mais cinco anos de idade para passar mal todos os dias, mas falo que dá vontade de fazer isso antes de levar Luísa à creche.

Só me resta encher os olhos d´água, lembrar de que fiz o meu melhor todas as tardes que passamos juntos nestes dois anos que cuido da Luísa e tentar ter a certeza de que estamos fazendo o certo, que nossa filha está crescendo e se desenvolvendo.

E que eu faria tudo de novo.

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