Luísa foi para a “quéchi”

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E chegou “o dia” da creche. A hora que adiei o máximo possível nestes quase dois anos em que cuido da Luísa.

O nosso bebê cresceu e as necessidades de contato com crianças de sua idade se tornaram ainda mais evidentes. Ao mesmo tempo, está cada vez mais complicado conciliar o trabalho em casa com as atenções e brincadeiras. Enquanto é um bebê, acaba sendo muito fácil. Ela ficava quietinha no berço e dormia duas vezes ao dia. As sonecas rarearam e, quando está acordada, Luísa quer desenhar, correr no quintal, pular, andar de bicicleta e brincar.

Sempre me arrepiei com relatos de mães e pais que me contavam sobre o sofrimento de deixar os pequenos na creche. Gente que se descabelava e ia embora aos prantos, enquanto o bebê ficava bem. Achei que passaria pela mesma coisa. Cheguei a me sentir apreensivo em deixar os cuidados com ela para outras pessoas, me senti culpado em “entregá-la” de volta ao “sistema”. Mas foram pensamentos rápidos, parei de sofrer com isso à medida que vi a necessidade evidente de Luísa conviver com outras crianças. E também diante da minha necessidade de focar em alguns projetos profissionais mais ambiciosos, coisa que eu cheguei a abdicar em alguns momentos.

E é um período confuso o tal da adaptação da creche. É toda uma correria em torno de uma manhã que parace ainda mais curta. É levar a mamãe ao trabalho, voltar, brincar, servir lanche, almoço, trocar de roupa e correr para a unidade, localizada a pouco mais de seis quilômetros de casa. Novos horários completamente distintos do que estavámos habituados nestes últimos dois anos.

Sabia que iria ser sofrido e extenuante, mas não tinha ideia do quanto. Estou escrevendo esse texto depois de algumas poucas idas à escola – da rede pública de Florianópolis – e já vi que terei que dividir essa história em vários capítulos. Eu já havia contado, aqui mesmo no blog, que eu é que não estaria pronto para esse dia. CONFIRA AQUI

O primeiro dia foi repleto de expectativa. De início, seriam apenas duas horas para observarmos a sua reação. Luísa chegou à “quéchi”, como ela mesma diz, viu as crianças, os brinquedos, abriu um sorriso gigante, correu e nem olhou para trás. As professoras então pediram que eu me retirasse – de início o combinado era que eu ficaria na sala – e me informaram que qualquer problema ou chororô me ligariam.

Sentei no parquinho e esperei que me chamassem. Nada.

Passeei pelo bairro com a certeza de que a ligação poderia ocorrer, afinal, Luísa é um grude comigo.

Só que o telefone não tocou.

Passaram-se as duas horas e só então voltei para creche. Estranho passar uma tarde longe da Luisa depois de tanto tempo. Eu estava meio perdido ao ponto de olhar umas duas ou três para a cadeirinha dela enquanto dirigia.

Luísa deveria estar ansiosa por minha presença, pensei. Mas a verdade é que a tirei aos prantos da escola, pois ela queria brincar mais. Confesso que minha primeira sensação foi uma mistura de orgulho por minha filha e uma pontinha de decepção por não terem me ligado. Hoje vejo o tamanho do egoísmo de minha parte.

No dia seguinte, uma sexta-feira, foi a vez de levarmos a mamãe para conhecer a “quéchi” e as professoras. Luísa mais uma vez nos surpreendeu e fez questão de ir nos barquinhos que enfeitam a entrada da unidade escolar, mostrar os brinquedos no pátio e só então, ir para a sala. Era como se ela estivesse mostrando tudo, toda orgulhosa, para a Gisele.

Mamãe e papai com os olhos cheios d’água: e mais uma vez, foi-se nossa pequena brincar com os coleguinhas sem olhar para nós.

Saímos para almoçar e logo recebemos uma ligação da creche informando que Luísa estava chorando. Chegando lá nos falaram que não era por estar sentindo nossa falta: havia sido uma pequena batida durante a farra no parquinho. Nada demais. E nada que interrompesse o restante da adaptação, que durou mais duas horas.

Eu e mamãe esperávamos pelo nosso bebê no pátio interno. Aí começamos a observar: uma mulher foi embora com o filho no colo aos prantos (os dois aos prantos, é bom destacar). Em uma sala bem ao nosso lado, um bebê de pouco mais de um ano segurava na grade da porta, tentava se equilibrar com dificuldades e berrava “papai”… Aquilo foi de cortar o coração.

Que bom ver a reação positiva da Lu. Não quero que me chamem por ela estar chorando, pensei. Mais uma vez tive raiva de mim por ter ficado desapontado quando ninguém me ligou no dia anterior.

“Ainda vamos manter duas horas na segunda-feira para observar a reação e a integração completa da Luísa” – avisou a professora, explicando que muitas crianças acabam rejeitando a creche depois de uma ou duas semanas. “Ainda é só o começo e quando a ficha dela cair, pode ser difícil”.

Gisele e eu nos olhamos, mas não trocamos uma palavra. Parecia que estávamos ao mesmo tempo aliviados, orgulhosos, aflitos e angustiados…..

Naquele momento, no fundo eu tinha era medo de que a professora tivesse razão.

E ela tinha.

O que aconteceu na semana seguinte foi que ficamos frente a frente com uma Luísa que até então desconhecíamos. Só que essa história vou contar no próximo post.

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