Mamãe voltou ao trabalho

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Quando a assistente social nos perguntou o que havia sido mais difícil desde a adoção da Luísa, eu prontamente respondi, sem medo de errar:

_ Sobreviver ao mês de maio foi o mais complicado para mim.

Dizem que o tempo passa rápido, acreditem, é a mais pura verdade. Gisele retornou às atividades profissionais no início de maio do ano passado, o que significa que já faz um ano que estou cuidando do bebê.

Chamado de mês das mães, das noivas, do amor, maio foi especialmente um dos períodos mais tumultuados desde a chegada da Luísa.  Logo na primeira semana, existia o estresse e o medo em ser o responsável por cuidar da pequena durante o dia, levar ao pediatra e ao posto de saúde para as vacinas. Além disso, um dos nossos gatinhos, o Zé, estava com problemas sérios de saúde e permanecia internado, dia sim, dia não, em uma clínica veterinária.

Eu seria capaz? Como acertaria meus horários? Como conciliaria o bebê com o trabalho em casa? Como eu me organizaria (tarefa quase impossível no meu caso)?

E se eu precisasse correr atrás de matérias mais pesadas?

Além das minhas dúvidas, existia um outro sentimento que precisávamos enfrentar naqueles dias. O ciúme e a frustração da Gisele em voltar a trabalhar e deixar Luísa aos meus cuidados.  Não era fácil para ela deixar de lado a filhota de poucos meses, que tanto quis e tanto nos encantava, para retonar às planilhas de Excel.

Enfim, no primeiro dia que fiquei sozinho com Luísa precisei ir ao centro da cidade. Era a prova de fogo e não me esqueço de um pedido da Gisele dias antes…

_ Não me vá esquecer ela no carro. Pelo amor de Deus, hein?

Eu seria ou não seria capaz de me virar com ela? Eu me perguntava isso de minuto em minuto. Dali para frente, a minha realidade era essa. Eu e Luísa, Luísa e eu. Momentos depois, quando cheguei para dar a primeira mamadeira na rua percebi que havia, claro, esquecido coisas.

O bebê estava ali, mas tanto o leite em pó quanto a água não estavam na mochila.

A primeira “mamada” da Luísa comigo na rua foi na cadeira de um posto Ipiranga, onde comprei a água e usei um microondas para aquecer. Deste dia em diante adotei a prática de um check list diário na mochila dela para evitar problemas. Tem dado certo até aqui.

No primeiro dia fui em banco, supermercado, loja e veterinário para saber da situação do gato.

_ Acho que vocês deveriam pensar em sacrificar o gatinho. Ele tem leucemia e não há cura.

O Zé vinha definhando há algum tempo com a chamada FELV, ou simplesmente leucemia felina. Naquela época ainda começou com um processo terrível de perda dos pêlos do corpo. O gato, que era o mais ativo da nossa casa, virou um monstrengo, cheio de feridas, pelado, magricelo e o que é pior, que vomitava pela casa toda e ficava o dia inteiro parado, olhando para o nada.

E outros problemas aconteciam naquele início de mês. Ainda na primeira semana de retorno ao trabalho, Gisele precisou ser internada em um hospital de Florianópolis para tomar soro e cuidar de fortes dores de estômago. Resultado de uma crise nervosa de quem não conseguia ficar longe da filha.

É muito difícil para as mães quando acaba a licença maternidade. Vejo pelo que nós passamos em casa. Gisele saía antes das oito e retornava depois das sete da noite. Aí chegava, queria ficar com a Luísa mas precisava jantar, tomar banho e muitas vezes cuidar de coisas da casa.

Não sobrava muito tempo. Ou tempo algum. E aí surgia o ciúme (falamos abertamente sobre isso e vou tratar em outros posts), a tristeza, a revolta, a frustração e os problemas de saúde.

Além da Gi e do Zé, no meio do mês foi ainda foi a vez do Carvão – outro gatinho que adotamos – ficar doente. Leva o bichinho, traz outro bichinho, compra remédio. E o bebê sempre me acompanhando.

Os dias foram passando. Levei Luísa sozinho pela primeira vez ao pediatra, depois para tomar as vacinas do mês. Felizmente não esqueci mais nada, só que minha rotina estava cada vez mais confusa. O trabalho ainda estava comprometido, não conseguia conciliar as coisas direito, me perdia com os horários, estava tenso. A casa ficava uma bagunça, esquecia até de colocar o lixo na rua.

Ela teve uma crise de bronquiolite. O Zé teve uma recaída e comecei a pensar seriamente no conselho de sacrificá-lo.  O Carvão ainda precisava arrancar uns dentes e também o levei na clínica na última semana, pouco antes de uma consulta do bebê. Aí descobrimos que ele também estava com leucemia.

O resumo é que na última semana de maio eu estava com dois gatos internados, uma bebê com bronquiolite, uma mãe enciumada com o carinho da Luísa comigo e por fim, era um pai à beira de um ataque de nervos.

Na manhã do último dia do mês, enterrei o Carvão em frente de nossa casa. A veterinária me ligou logo cedo e deu a notícia de que ele havia morrido durante a madrugada. Não houve tempo de fazer muita coisa por ele.

Sentei na garagem e comecei a chorar. Chorei não só por perder um bichinho de estimação. Chorei porque me sentia pressionado, não estava conseguindo conciliar mais nada em minha vida e tinha a certeza de que não estava dando conta de cuidar da Luísa.

Ainda faltavam umas doze horas para o mês de maio acabar. Junho precisava ser diferente. Ou melhor: eu precisava me adaptar urgentemente.

Um ano já se passou e muita coisa aconteceu. Luísa vem crescendo e estou aprendendo uma coisa nova a cada dia, mesmo que aos trancos e barrancos. Posso dizer que aquele mês de maio foi tumultuado, mas me deu força para enfrentar muitos desafios.

Não sou mais o mesmo, estou muito mais feliz. Sobrevivi.

Ah, o Zé também. Ele continua por aqui.

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Comentários

  1. oraida maria santos escandiussi disse:

    Depois de todo este sufoco…a gente respira e ..não acredito…consegui…É isso que aumenta nossa força …e fé….

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