Meu coração é vermelho

 

coracao vermelho

Estavámos aguardando na fila de adoção por mais de dois anos quando fomos chamados para conhecer um bebê de apenas alguns dias de vida. A assistente social nos recebeu risonha, nos levou pelo corredor até um quarto onde havia alguns berços e em seguida apontou para o fundinho. Era nossa filha. Chegamos perto, vimos uma pequena criança recém nascida, cabelos arrepiados, olhos esbugalhados e….

_ Não, muito obrigado. Não foi essa cor  de criança que pedi.

Virei as costas e fui embora. Preferia esperar por um bebê da minha cor a dar uma chance para uma criança negra.

Já pensou se a nossa história de adoção fosse essa?

Obviamente que não isso não acontece em nosso país. Não ao pé da letra. Mas usei uma metáfora, triste é verdade, para ilustrar algo que ocorre sim, ainda durante os processos de adoção.

Essa semana, estava olhando o relatório do Conselho Nacional da Justiça (que pode ser conferido aqui), vi que o debate sobre adoção merece um maior aprofundamento e, arrisco a dizer aqui, algumas mudanças.

De acordo com os dados do CNJ, são mais de 33 mil pretendentes no Brasil. Para ser mais exato, 33.342 cadastrados e considerados “ativos” no sistema. Ao mesmo tempo, existem 5561 menores disponíveis para adoção.

Mas o que chamou minha atenção foram as restrições: mais de um 1/4 das pessoas, ou 26,15%, aceitam somente crianças brancas (sim, eu escrevi SOMENTE). A exigência por si só é extremamente restritiva, pois apenas 1799 crianças cadastradas no sistema são brancas. Se somarmos os negros e pardos  chegamos ao índice de 56% dos menores disponíveis para adoção. Ou seja, a ampla maioria. Só que menos da metade dos interessados, 46,9%, são completamente indiferentes em relação à cor.

A maioria dos pretendentes reside nas regiões sudeste e sul. Justamente,  são os que apresentam as maiores restrições quanto à cor da criança. No sudeste, 23% das famílias aceitam somente filhos da cor branca. Nos três estados do sul, esse índice chega a 37%: dos 11,7 mil cadastrados para adotar, 4353 NÃO aceitam pardos, mulatos, negros, amarelos ou indígenas.

O sexo também é outro fator colocado pelas pessoas que entram na fila: 9% querem apenas um menino enquanto 10.260 cadastrados (30,7%) querem somente meninas.  78% dos cadastrados NÃO aceitam irmãos. Por outro lado, 4200 crianças possuem irmãos e dessas, 2214 contam com irmãos que também estão no sistema do CNJ.

Com relação à idade, apenas 231 crianças em todo o pais estavam na faixa dos 0 a 3 anos de idade. E outro número estarrecedor é que as doenças, tratáveis ou não,  acometem 22% dessas crianças e adolescentes cadastrados no sistema.

Ver esse relatório me deixou muito triste. Observações quanto à idade, condição de saúde, sexo, aceitação de irmão ou não, tudo isso é normal diante da situação econômica, social e até mesmo psicológica dos pretendentes. Nós mesmo optamos por uma criança saudável, de até 4 anos, aceitaríamos irmãos, mas sequer fizemos qualquer objeção a qualquer cor de pele.

No meu entendimento, a adoção é uma via de mão dupla. De um lado, crianças que necessitam de  carinho, proteção e amor. Do outro, pessoas que muitas vezes buscam na adoção uma forma de conquistar a maternidade/paternidade não conquistada pelas vias “normais”. É um encontro de almas, de corações, não apenas de cor da pele.

Vi esses números e passei o final de semana “matutando” em como escrever esse texto. Penso existir uma inversão de valores: a lei e todo o sistema deveriam proteger a criança e a ela proporcionar a inserção à uma família. Mas o que ocorre é que com as restrições e o preconceito, muitas estão sendo relegadas ao segundo plano. Um menor que já passa por uma condição de vulnerabilidade social fica à espera de uma família que aprove a sua cor.

Isso na minha opinião é repugnante.

O estranho é que a nossa Constituição Federal em seu artigo 3º, não permite nenhuma distinção das pessoas por causa de sua cor. Pela lei, o estado deve “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem raça, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. Então, como é permitida essa distinção?

O processo de adoção deveria abolir isso. A cor da pele não poderia servir como critério ou quesito. A família que entra com processo de habilitação não teria como escolher se uma criança é negra, branca, parda, amarela ou indígena.  Isso é inegociável. Somos todos iguais. A lei tem que amparar o menor e sua inserção em um novo lar e não os pais em sua escolha por um filho que possa “parecer” com eles.

E se o cadastro permite esse tipo de escolha,  é discriminatório e racista. Aprendemos no curso de adoção que este procedimento ocorre para que não exista o risco de que as crianças possam ser maltratadas ou até mesmo devolvidas por famílias que não a aceitem devido à sua cor. Seria uma forma de proteção. Mas aí menores brancos serão entregues às famílias que condicionaram o seu amor à cor de pele? Que educação terá essa criança? A discriminação continuará? É tão complicado…

Penso que se os pretendentes tem receio de ter um filho “diferente” pois teriam que dar muitas “explicações”, me desculpem, mas não estão aptos para adotar e assumir a educação de uma criança.

Se Luísa fosse verde, azul, vermelha, negra, amarela ou branca, seria amada – como é – da mesma maneira. Quem passa pela emoção da adoção sabe o que estou dizendo. O amor é tão grande, intenso e arrebatador que, além de não caber em nós, não vê cor de pele, de cabelo ou de olhos. O que a gente vê apenas é o filho (ou filha) e sente um amor do tamanho do mundo.

Amar não é ser branco, preto ou amarelo. A única cor que existe nessa história é o vermelho.

Pode ser o vermelho do coração. Ou o vermelho da vergonha de ainda cultivarmos o preconceito sobre a cor neste país.

Você escolhe.

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