Minhas primeiras férias

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Tenho um caderno aqui em casa que afanei de minha mãe na última vez que fui para Minas Gerais com algumas das minhas redações feitas no primário. Caderninho comum, com uma capa xadrez, todo surrado, mas capaz de trazer ótimas recordações.

Em muitos textos conto brincadeiras com amigos, histórias fantasiosas e, em um dos que mais gosto, sobre minhas férias escolares.

Eu não iria fazer absolutamente nada de diferente, iria ficar em casa e brincar na rua, mas um belo dia meu pai me chamou para uma viagem de trabalho a Belo Horizonte – entre Poços de Caldas e a capital de Minas são longos 500 quilômetros. No texto conto a viagem surpresa – de um ou dois dias – e do encontro com meus tios e minhas primas. Narro que vi porcos, galinhas e cavalos e que brinquei muito.

Ao final, na inocência de um garoto de oito ou sete anos, afirmo que meus amigos morreram de inveja e pediam para que eu contasse mais detalhes da aventura.

É uma viagem no tempo…

E a vida, o tempo, como eu acredito, é um ciclo….

Passaram-se décadas e esta é mais uma vez uma “redação” sobre minhas férias. Apenas duas semaninhas de férias. As primeiras da Luísa.

No início pensava em levar a pequena para passar uns dias em Minas Gerais e curtir a família. Poços de Caldas é um lugar lindo para se passar as férias de julho e com bisavó, vovós,vovôs, titios e titias seria demais.. Só que, de repente, levamos uma grande rasteira do destino aqui em casa: as férias começaram tumultuadas e com muita tristeza devido às idas e vindas ao veterinário e a horrível despedida de nosso amado gato de bombachas, o Alemão…

A dor é imensa e pensei que não teria forças para os dias seguintes. Mas tive que buscar energia no fundo do coração. Luísa anda a mil, corre por todosos lados, pergunta sobre tudo, tem energia de sobra para gastar. E a vida tem que continuar, por mais dor que possamos estar sentindo.

E o que fizemos?

Brincamos.Brincamos e brincamos….

Construí um castelo da Frozen com três caixas de papelão, passeamos todos os dias de bicicleta, fomos na praia tomar caldo de cana, inventamos fazer pão de queijo e fizemos bagunça na cozinha, mexemos com nossa horta, plantamos tomates e podamos nossa parreira, brincamos com os vizinhos de pega-pega, esconde-esconde, dinossauros no jardim. Fomos ao circo, conversamos com todos os cães da rua, contamos nuvens e até sentamos na rua, sem fazer absolutamente nada.

Nada de shopping centers, colônia de férias, resorts, eventos em locais fechados ou “enlatados”: o negócio foi buscar diversão em coisas simples,como plantar uma muda de couve. No fim de semana, eu e Gisele até tentamos levar Luísa para um passeio fora das redondezas e a resposta foi clara: “quero brincar no jardim”. E aqui fizemos picnic, churrasco e mais brincadeiras.

Não eram essas as férias que planejei. Mas o que planejei? Viagem? Parque de diversões? Parece que as coisas simples nos aproximam ainda mais… As férias acabaram e chegou a hora de deixar Luísa na creche. Ela foi toda faceira, abraçou um amigo e seguiu toda feliz para brincar….Acabou.

Não foi fácil o meu retorno. O papai voltou mais triste para casa e sentiu um vazio. O vazio deixado pelo Alemão, que me acompanhou por uma década no home office, e o deixado por esses dias de muita brincadeira. As tardes estarão cada vez mais solitárias só que, mais uma vez, tenho que agradecer Luísa. Ela conseguiu fazer com que momentos difíceis – uma perda e a impossibilidade de ver nossa família – se transformassem em férias inesquecíveis. Pelo menos para mim.

Passei dias felizes e agarrado e agarrado a ela……. brincando, correndo e rindo o tendo tempo todo. Sem recorrer a nenhum “depósito de crianças”.

Mais uma vez, mesmo sem saber, foi Luísa quem me fez crescer. Superar uma perda, uma frustração e me fazer sorrir com as coisas mais simples. Sou mesmo um cara abençoado e o homem lá de cima gosta mesmo de mim…

Tal como a minha redação que escrevi com meus sete anos de idade, agora chegando aos meus 40, muitos de meus amigos vão sentir inveja dessas férias…

Obrigado mais uma vez, Luísa.

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