Opinião Cala-te, boca!

Cala-te, boca!

Artigo de Fábio Paes

Foto: Divulgação Planalto

Foto: Divulgação Planalto

 

Sabemos, dentro da estrutura e lógica do Estado, em destaque no regime presidencial, que a fala de um presidente representa a forma como as coisas públicas de um país são elaboradas e implementadas. No dia 8 de março, fiquei mais uma vez estarrecido com o discurso inapropriado do Temer ao falar  sobre o Dia da Mulher. Em um discurso de menos de três minutos, trouxe uma perspectiva devastadora frente aos direitos modernos conquistados. Suas afirmações retratam uma visão antiga, conservadora, machista e patriarcal de mulher e da sociedade como um todo.

A mulher, segundo o presidente, como uma administradora doméstica do cuidado com os filhos, detentora da responsabilidade de educar de forma exclusiva os seus filhos e de gerenciar e executar as contas e gastos referentes a casa. Criar filhos, limpar casa e fazer supermercado, resume o papel da mulher na sociedade. Quando afirma que “educar não tem a ver com homens”, ele deflagra o que há de mais ultrapassado e perigoso no enfoque político do Estado Brasileiro. Passou,em meu imaginário com flashes históricos, a questão da Paternidade, da equidade de Gênero em todos os âmbitos e outros temas tão contemporâneos e supra debatidos no campo do conhecimento e das práticas cotidianas. Por isso, todas as políticas direcionadas à população nascerão e serão desenvolvidas com essa distorcida e violadora posição do presidente. Por isso, temos que nos perguntar e nos preocupar com o modus operandis das propostas políticas e públicas deste governo: O que esperar da Reforma Trabalhista? O que esperar da Reforma Previdenciária? O que esperar da Política Nacional de Direitos Humanos e, em especial, da Política para as Mulheres? O que esperar, na área da criança e do adolescente, do Programa Criança Feliz que, no seu escopo, traz a visão de que temos que “ensinar e tutelar as mulheres” para que cuidem bem de seus filhos? Rasa reflexão? Talvez, mas quando não há uma visão sistêmica e histórica dos processos, tudo que é proposto está fadado ao reducionismo e a uma visão parcial do problema ou da solução.

O perigo não ronda essa afirmação do presidente, mas, sim, é realidade e isto é grave! Eis  a questão!  Porque, da boca de um líder político, está o direcionamento prático para a vida e o contexto de milhares de famílias, em especial das mais empobrecidas, que sofrem por políticas autoritárias e equivocadas de redução de direitos ao invés de ampliá-los. Está na hora de darmos um basta nessas falas e visões distorcidas que são publicadas e construídas como algo “normal”. Os movimentos e redes devem se posicionar fortemente e fazer incidência para que não tenhamos mais retrocessos e processos antimodernos, mas a concepção de direitos sociais e civis como ferramentas contemporâneas de uma nova e necessária sociedade, mais justa e igualitária. E que a velha política seja enterrada para que sirva de adubo para uma nova estrutura e visão de governar, menos coronelista, machista, dogmática e para que percebamos o ressurgimento nesta época de tantas manipulações e jogos de interesses empresariais, midiáticos, partidários e corporativos que se vale daquilo que chamamos de vida. Pela prioridade de levantarmos a bandeira histórica da luta das mulheres que representa ainda um cenário de avanços mas de muitas muralhas e violações desde a boca e prática de nossa sociedade contraditória.

 

*Fabio Paes é Assessor Nacional de Advocacy da Aldeias Infantis SOS Brasil