O adotar: a tarde em que finalmente conheci Luísa

Imagem: Freepik

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Não me recordo de muitos detalhes do momento em que conheci a Luísa. Lembro do abrigo, de caminharmos pelo corredor e apenas de alguns flashes do primeiro contato. Fiz fotografias do primeiro banho e vi mamãe colocar roupinhas. E só. Adotar é um turbilhão de emoções.

Diálogos com a assistente social, o jeito que Luísa estava no bercinho, a roupa e outros detalhes não foram processados pelo meu HD. Parece que eu estava ali, mas ao mesmo tempo não estava. Queríamos muito adotar, mas fiquei assustado. Boa parte da minha memória desse dia é a memória da Gisele: é a ela que recorro para me contar como foi a conversa, o que disseram para nós, como viu nossa filha pela primeira vez e tudo mais. Estava em outra dimensão, tomado pelo susto, medo, alegria, ansiedade e um furacão avassalador de sentimentos.

Só revelei para meus pais que eles eram avós depois que saímos do abrigo, quando já havíamos conhecido nossa filha. Até então não sabia o que fazer, sentia o coração sair pela boca, as pernas bambas, suava frio nas mãos.

Uma das poucas coisas que me recordo não foi relacionada ao nosso bebê, por mais incrível que possa parecer. Havia uma menina de quatro ou cinco anos na casa-lar que se aproximou de mim no meio daquele alvoroço todo. Encostou a mão nas minhas pernas e pediu:

_Me pega no colo?

Meio que no automático, fiquei com ela nos braços. Descobri que aguardava pela destituição do poder familiar para poder, talvez, ser adotada. Adotar para ela era algo ainda distante. A família pulava de comarca em comarca impetrando recursos para brecar a adoção, mesmo sendo autora de diversos maus tratos juntos àquela criança e aos outros irmãos maiores. Nos olhamos e permanecemos em silêncio todo o tempo. Um silêncio perturbador.

Ela queria colo. Não queria palavras. Parece que sabia porque estava ali, que queria ir embora com a gente ou com alguém que lhe desse um pouco de amor. E como estávamos transbordando de amor naquele momento, a garotinha se aproximou. Foi atraída pelo que ela mais precisava naquele momento.

É triste implorar por amor.

Acho que a gente chega no mundo depois de meses no escuro, encontra uma série de coisas diferentes, passa a explorar, descobrir e sempre precisamos de uma mão para nos guiar e nos proteger. E de um colo para poder descansar, ganhar carinho e repor as energias.

Imagina chegar e o “escuro” continuar: não ter nada, depender de decisões de pessoas em gabinetes, de papéis que são colocados em escaninhos, de análises de recursos, citações de oficiais de justiça e tudo o mais. É a realidade eu sei, mas é uma realidade cruel.

Um carinho que só pode ocorrer depois de assinaturas e sentenças. Adotar. É o amor com burocracia.

Naquele momento ocorreu um estalo. Olhei para a Gisele dando o primeiro banho na nossa filha. E vi que amava aquele pequeno bebê há muito tempo . Foi um amor construído por nós em dois anos e meio de gestação do coração.

Às vezes me pego pensando em como teriam sido as primeiras semanas de vida da Luísa. E isso me dá um nó na garganta. Por mais que tenha sido muito bem cuidada pelas pessoas da casa lar, não era um amor que necessitava. Não deve ter sido uma primeira boa impressão do mundo. Aí lembro dos olhos daquela menininha. Foi estar com ela no colo que me fez voltar ao planeta Terra, de parar de deixar o medo me vencer. Não posso dizer que estava completamente seguro de que seria um bom pai, mas vi que eu era capaz de dar o que Luísa mais precisava naquele momento: colo, carinho e muito amor.

E assim tenho feito. E assim farei todos os dias da minha vida.

Escrevo isso, pois comemoramos o Dia Nacional da Adoção e li diversas matérias sobre crianças em abrigos, dificuldades dos futuros pais em adotar, morosidade de processos, excesso de exigências dos pretendentes e tudo o mais. Até demos entrevista sobre isso. Foi uma enxurrada de dados sobre famílias cadastradas no sistema e crianças prontas para adoção. O que intrigou é que lembrei dela em tudo o que li.

Como estará agora? A burocracia ainda emperra sua vida? Alguém conseguir adotar aquele anjo? Será que tudo deu certo? E o que era o certo afinal? Foi adotada? Será que foi devolvida à família? Os maus tratos cessaram?

Nunca vou saber… Por isso decidi imaginar que aquela pequena criança está no colo de alguém e que é muito bem tratada, com todo o carinho e amor que pedia naquele momento. Imagino que o caminho dela será repleto de luz e que o mundo, apesar de não ter demonstrado ser muito amigável no começo de sua vida, é muito legal.

No meio de toda aquela confusão, não me lembro de vários detalhes. Mas nunca vou esquecer o nome e o rosto daquela menina. E até hoje ela faz parte das minhas orações.

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