A história do gato de bombachas e a menina dos cabelos cacheados

Alemão e Lu

Era uma vez uma menina de cabelos cacheados que foi morar numa casa onde já vivia um gato de bombachas. Um gato amarelo, peludo e muito carinhoso.

Não foi exatamente um amor à primeira vista. A recém-chegada era muito pequenina, chorava muito, chorava alto, berrava às vezes. Se mexia de forma descontrolada e vivia em carrinhos ou no berço. E isso deixava o gato de bombachas enciumado e ressabiado.

Foi uma relação à distancia por mais de dois anos. A menina de cabelos cacheados começou a engatinhar, depois aprendeu a andar e bem que tentou se aproximar. Mas o felino entrava em pânico cada vez que ela chegava perto. E diante de qualquer ameaça de interação, ele se mandava para outro ambiente da casa.

Somente nas últimas semanas, o gato de bombachas se aproximou. Até permitiu que ela o beijasse. Numa dessas noites de frio mais intenso, ele foi, por livre e espontânea vontade, se aconchegar na coberta cor de rosa junto com a menina de cabelos cacheados. Antes se garantiu, por segurança, que ela estivesse dormindo. Tenho certeza que fez isso para dizer que a amava. Do jeito dele.

E se despedir.

O nosso gato de bombachas, o Alemão, nos deixou hoje. Justo no Dia do Amigo.

E esse é um daqueles textos que eu nunca queria escrever.

Alemão

A história começou há quase dez anos, quando saímos do supermercado e voltávamos para casa. Gisele viu um pequeno gato amarelo e imundo parado ao lado de um poste. Ela pediu que eu parasse, desceu e o chamou: ele miou e sem pestanejar subiu em seu colo – seria a primeira das milhares de vezes que faria isso. Pronto. Ali sim foi amor à primeira vista. O curioso é que eu nunca fazia aquele caminho para ir para casa. No dia que troquei o trajeto, encontramos o Alemão.

Quando Luísa chegou por aqui, além de toda a ansiedade, tínhamos uma preocupação especial: a reação dos gatos com a presença de um bebê. Passamos por um “pré natal” de três dias e não houve tempo de preparar os felinos para a mudança. Eram caixas e coisas chegando e um vai e vém danado nosso naqueles dias. Entretanto, a reação foi até certo ponto tranquila, como contei aqui. Mas nunca houve nenhum contato mais intenso. Principalmente com o Alemão, sempre arredio.

Hoje nos despedimos do pequeno que nos fez companhia por tantos anos. Sempre esteve ao nosso lado nas conquistas mais importantes de nossas vidas, como a chegada da menina dos cabelos cacheados e na compra da nossa casa. Nos momentos difíceis também: quantas vezes não chorei com ele no colo?

É muito duro se despedir de um amigo…. Estou escrevendo com uma dor horrorosa, que parece rasgar meu coração de fora a fora. Existem coisas que não vão mais acontecer, e isso ainda não consigo assimilar. Não teremos mais o gato de bombachas nos esperando na porta da sala a cada vez que chegamos em casa, não teremos mais alguém esfregando em nossas pernas enquanto lavamos louça, e nem um chato miando as seis da manhã para que alguém abra a porta da varanda.

Até para escrever vai ser mais difícil. Não haverá mais o peludo amarelo esfregando a cabeça na minha perna no escritório e se ajeitando como um rei em meu colo para dormir enquanto trabalho.

O que me deixa mais tranquilo é que dedicamos todo nosso amor ao Alemão, todo esse tempo. E ensinamos Luísa a agir da mesma maneira. Ela sempre que chega em casa faz questão de falar oi e dar carinho a cada um dos felinos.

Hoje, tivemos que explicar a ela que o Alemão não voltará mais para casa. Que ele virou uma estrelinha no céu, junto com o Zé e o Carvão, outros queridos amigos que já se foram. Isso também me serve de alento: onde quer que nosso pequeno esteja agora, acredito que estará sendo recebido com as brincadeiras brutas do Zé e sob o olhar sempre desconfiado do Carvão….

Assim que acordou da soneca da tarde, Luísa pediu que eu lhe mostrasse a “estrela do Alemão”. E é exatamente o que iremos fazer: olhar para o céu, que estará cheio de estrelinhas, encontrar uma que será a do nosso gatinho de bombachas e agradecer.

Agradecer por todo carinho, todo amor e toda companhia que nos fez por esses anos.

Fica em paz, meu Alemão amado. Você já está fazendo muita falta. Mas vai morar para sempre em nosso coração.

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