O presente que chegou em setembro

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Por Tânia Machado de Andrade

 

Era um dia comum, um dia de agosto, dia 31. Estávamos nos preparando pra sair para o trabalho, tínhamos acabado de almoçar e ajeitávamos a cozinha. Meu telefone toca, como o sinal de celular é uma grande porcaria aqui em casa, saio para atender. Do outro lado da linha a pessoa se apresenta como Maria Eduarda do Fórum. Na hora meu coração começou a bater aos pulos, imagino que se tivesse um problema cardíaco teria caído naquele momento. Ela tranquilamente fala do clima, dos turistas, da praia e eu, confesso, além de não entender a conversa, não registrei metade do que ela disse. Sei que em determinado momento não aguentei e fui direta, a que devo sua ligação. Ela ainda na maior tranquilidade me diz que tinha uma menininha de 07 meses nos esperando e se eu queria conhecê-la.

De toda a sequencia da conversa só me lembro de ter dito que queria ir naquele momento e ela pediu que a gente esperasse um pouco para que pudesse ler o processo, que tinha acabado de chegar, para conversar com a gente. Até então meu marido continuava lavando a louça, achando que eu estava tratando de trabalho. Entrei em casa e contei da ligação já aos prantos. Ele ficou catatônico, eu não sabia o que fazer, se ia trabalhar, se tentava fazer ele falar. Lembro dele ter dito, não vai trabalhar nada, avisa a Zeca (minha chefe). Vou tomar banho e nós vamos para o Fórum, esperamos lá. O banho demorou meia hora, acho que aproveitou para organizar as ideias e eu, chorando sem parar, fui ler o Diário do Papai e buscar informações sobre o que poderia acontecer dali para frente. Li um monte de coisas e saí com a certeza que os próximos dias seriam de uma intensidade inesquecível.

Chegamos ao Fórum muito antes do horário combinado e esperamos, acho, por menos de 30 minutos, os mais longos da minha vida. Maria Eduarda nos chama, pergunta como estávamos e começa a contar da menininha. Dessa conversa eu realmente me lembro de muito pouca coisa, eu só queria ir conhecê-la e já sabia que o abrigo não deixava entrar depois das 18h. Já tinha passado das 16h. Sei que conseguimos autorização para conhecê-la e fomos, obviamente no dia seguinte eu não sabia voltar ao lugar. Entramos, era uma casa lar super bacana, bonita, arrumada e com um corredor enorme, no final do corredor um carrinho de bebe. A assistente social do abrigo se vira pra nós e diz para irmos até lá e conhecer a nossa filha. Achei que não teria pernas, eu e Elvis fomos e encontramos nossa princesa com olhos negros assustados e arregalados. Os dois aos prantos, as queridas do abrigo nos dizendo para pegá-la e assim eu fiz e depois o Elvis. Naquele momento já não existia a menor dúvida que ela era a nossa filha.
Com ela nos braços recebemos uma ligação da Maria Eduarda dizendo que se quiséssemos voltar ao Fórum ela já tinha providenciado os documentos de guarda, a gente assinava, dava entrada e conseguiríamos pegá-la mais rapidamente. Levá-la pra casa passou a ser nosso objetivo absoluto, como assim eu tenho uma filha de sete meses e ela não dorme em casa? Sair de lá sem ela foi um dor no coração. Na saída combinamos a visita do dia seguinte e voltamos ao Fórum. Era segunda-feira e todo nosso esforço era pra levá-la pra casa na quarta. Voltamos para casa, demos a notícias para algumas pessoas muito próximas e começamos a organizar o que seria o dia seguinte. Esperamos quatro anos e tínhamos menos de 48 horas para criar condições para receber um bebezinho.

E foi o que fizemos. Acordamos cedo, na verdade acho que não dormimos, e fomos direto a uma loja de móveis no caminho, sem ideia de tipo de berço, de preço, nada. Meu cunhado foi dando orientações por telefone. Em uma hora já tínhamos comprado os móveis do quarto, para a entrega e montagem no dia seguinte contamos com a solidariedade das moças da loja comovidas com nossa história e ansiedade. Antes das 10 horas já estávamos novamente no abrigo para passar mais um tempinho com nosso bebê. Saímos de lá mais uma vez chorando, mas tínhamos que ir atrás das outras milhares de coisas, protetor de berço, mamadeiras, chupetas, fraldas etc etc etc etc.

Como o tempo era muito curto, optamos em andar pelo Centro fugindo dos locais onde habitualmente os amigos frequentam, especialmente o café Sorrentino, não havia tempo para explicações e ainda poucos sabiam da chegada da nossa pequena e a maioria sequer sabia que estávamos na fila de adoção – optamos por isso para evitar a ansiedade coletiva. Compramos o que acreditávamos ser o necessário para os primeiros dias, sacolas e mais sacolas, nunca gastamos tanto dinheiro em um só dia. Mas o “segredo” durou pouco, na volta pro carro encontramos nosso querido amigo paparazzi e baita repórter fotográfico Sergio Vignes que na hora puxou a máquina e nos fotografou, não demorou muito a foto estava no facebook e as pessoas enlouquecidas tentando entender o que estava acontecendo.

Terminamos o dia exaustos e ainda com muita coisa pra fazer, a ansiedade era cada vez maior, a possibilidade de que conseguíssemos pegá-la no dia seguinte fazia o corpo todo tremer. Acordamos cedo, fomos de novo ao abrigo, compramos mais coisas e às 13 horas, quando o Fórum abriu, começamos a pressão. Maria Eduarda logo nos informou que a juíza já tinha despachado a guarda, agora dependia do cartório emitir a certidão, que a juíza também teria que assinar. Ligamos pro responsável no cartório que ainda não tinha recebido o despacho , mas que comovido com a minha ansiedade, disse que emitiria a certidão assim que recebesse o documento. Claro, fomos pro cartório e lá ficamos sentados esperando o documento que nos permitiria retirar nossa filha do abrigo. Saiu já passava das 17h, o pessoal do abrigo não liberava depois das 18h. Naquele dia todos os deuses estavam com a gente, não pegamos nenhum trânsito e antes das 18h vivemos a maior emoção de nossas vidas.

A pequena tinha os olhos assustados, mas em nenhum momento estranhou a nossa presença, mesmo com toda a confusão que nosso nervosismo gerou, o principal foi não conseguir arrumar a cadeira do carro, nem com a mais de uma hora que levamos para chegar em casa, nada, sem choro, sem reclamação. Acho que também sabia que aquele era um dia muito especial.

E só faz quatro meses que tudo isso aconteceu, embora pra nós seja como se ela sempre estivesse com a gente. Vivemos um linda história que mudou radicalmente a nossa vida, nos trouxe muitas outras preocupações e responsabilidades, muito mais cansaço, muito menos horas de sono, mas um amor que hoje é indescritível.

 

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