O que é a paternidade envolvida, afinal?

Imagem: Freepik

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O relatório sobre a Situação da Paternidade no Mundo, que citei na postagem que abriu essa nossa série especial do Dia dos Pais, foi divulgado ano passado e aponta que mulheres se sentem mais apoiadas, conseguem amamentar por mais tempo e conseguem voltar ao mercado de trabalho com mais qualidade quando as tarefas são divididas com o parceiro.

Os pais precisam se envolver.

“ No caso dos homens, aprendem novas formas de lidarem com conflitos ao invés de utilizarem-se de violência, apresentando menor envolvimento com álcool e drogas e cuidando mais da sua própria saúde”, aponta a socióloga Milena do Carmo, acrescentando que os papais relatam estar mais felizes e realizados estando próximos de seus filhos e que, se fosse possível, trabalhariam menos por isso.

No Brasil ainda não existem dados disponíveis sobre a quantidade de pais que assumem o cuidado com os filhos. É um cenário bastante distinto dos EUA, por exemplo, onde existem comitês, organizações, e até encontros anuais. A presença de papais blogueiros/cuidadores fez com que grandes empresas do mudassem a postura, direcionando ações de marketing para os pais.  Aqui, muitas e muitas vezes não encontro nem trocadores em locais mistos e já tive que recorrer a gambiarras de todo o tipo para trocar as fraldas da Luísa.

A socióloga do Promundo cita um “estigma” em cima desses homens, “pois fogem do esteriótipo de provedores”.

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Licença paternidade

Um dos pontos do relatório é a questão da licença paternidade, citado quase que como um “problema mundial”. Em termos globais, apenas 92 países contam com o benefício e, em metade deles, o período é inferior a três semanas. De acordo com o estudo, políticas de licença parental bem elaboradas, quando combinadas com creche gratuita ou a preços acessíveis, possuem maior potencial para mudar o fardo associado à tarefa do cuidado.

“Assegurar a licença paternidade é um passo vital para o reconhecimento da importância da divisão dos cuidado das crianças, e é um importante meio de promoção de seu bem-estar e da igualdade de gênero no lar, no trabalho, e na sociedade como um todo. No Reino Unido, os pais que tiraram licença após o parto de seus filhos ou filhas eram 19% mais propensos a participarem na alimentação e de acordarem a noite para cuidar dos bebês 8 a 12 meses depois, em comparação com pais que não tiraram a licença”, cita um dos pontos do relatório, confira aqui.

Muitos pais, mesmo em países desenvolvidos, não optam pelo benefício. Aqui no Brasil, o Marco Legal da Primeira Infância (13.257/2016), entretanto, já é citado como um grande avanço. “Com a regulação do Marco Legal é possível que esse quadro comece a mudar, já que em diversos artigos a lei fala sobre o pai: seja permitindo mais 15 dias além dos 5 previstos na Constituição Federal, tendo licença para ir em duas consultas de pré-natal ou exames complementares durante a gestação, e em uma consulta médica por ano até os seis anos, no caso das Empresas Cidadãs”, afirma Milena.

“É a primeira vez que há uma mensagem clara de que o homem é parte responsável da criação dessa criança, o que indica que há sim uma mudança em curso no Brasil e no mundo”, afirma Milena.

luisa caminho e companhia

ENTREVISTA

Confira o restante da entrevista com a socióloga Milena do Carmo, do Promundo e conheça os dados sobre a paternidade no Brasil. 

PAPAI: Em muitos lares verifica-se uma “inversão” em relação aos padrões ditos habituais em nossa sociedade. A mulher trabalha fora e o pai, que trabalha em casa, alia os afazeres domésticos com a criação dos filhos. Todo o trabalho doméstico não pago, é dividido. Essa forma de criação pode trazer benefícios para a formação da criança? Quais?

MILENA: Sem dúvida traz. Estudos comprovam que meninos que crescem em lares com uma divisão de tarefas mais igualitárias, crescem mais equitativos e tendem a repetir o comportamento que viram em seus pais. As meninas tendem a ter relacionamentos que as permitam serem mais autônomas e menos submissas aos padrões tradicionais. Mesmo o relacionamento entre o casal melhora e há menos conflitos quando a mulher tem mais apoio na vida profissional e o homem sente-se mais próximo e presente na vida das crianças.

PAPAI: E de que formas um pai pode estar mais presente?

MILENA: Dividindo as tarefas domésticas e de cuidado, dando atenção total àquela criança em desenvolvimento, ouvindo suas demandas e aprendendo com outras pessoas, mas também por si próprio, o verdadeiro significado da palavra cuidado. Mesmo que não esteja em um relacionamento com a mãe – ou com o outro pai dessa criança, em caso de um relacionamento homoafetivo – ao estabelecer esse vínculo desde o princípio, mesmo que não morem mais juntos, ele sempre vai ter um elo com essa criança.

A participação no parto também é um momento de ouro, bem como as consultas de pré-natal. Há diversos contextos diferentes, como homens que trabalham em grandes obras longe do estado em que seus filhos e filhas vivem, homens que trabalham embarcados. O importante é o contato e a qualidade da relação em qualquer um dos casos.

PAPAI: De que maneira podemos fazer os pais se envolverem mais nos cuidados e na educação dos filhos? Há sugestões de políticas públicas OU INICIATIVAS que possam auxiliar para que pais estejam mais presentes no dia a dia dos filhos?

MILENA: Creio que o Marco Legal da Primeira Infância é um bom começo, pelas razões que apontem anteriormente. Aqui no RJ, por exemplo, há um Decreto Municipal (24.083/2008) que prevê que as Unidades de Saúde promovam ações em torno do Mês de Valorização da Paternidade, em agosto. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, do Ministério da Saúde (PNAISH/MS) possui um eixo de Paternidade e Cuidado em que incentiva a promoção do Pré-Natal do Parceiro, na rede pública de saúde.A Cartilha da Gestante entregue durante o pré-natal também prevê cuidado com a saúde do pai.

A própria Rede Nacional de Primeira Infância possui o GT Homens pela Primeira Infância, que discute a importância do envolvimento paterno. O Twitter recentemente aprovou uma licença paternidade de 20 semanas! Embora seja uma empresa privada, acreditamos que pode influenciar positivamente tanto governos quanto outras empresas, além dos próprios pais, que passam a ver isso como uma possibilidade.

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