O que seu filho pode e o que ele não pode fazer?

 

 

O que seu filho pode e o que ele não pode fazer?

 

E agora? O que seu filho pode e o que ele não pode fazer? Luísa fez uma terrível bagunça com as massinhas. Misturou a amarela com a roxa, colocou a verde junto com a vermelha, picou a azul com uma faquinha de plástico e espalhou uma que veio com glíter em cima de sua mesinha de atividades. Pelo chão ainda estavam caídos dois potes com as cores amarela e branca

Tudo isso em menos de dois minutos, o tempo em que eu preparava o seu prato para o almoço. Fazia um calor insuportável. Era um daqueles dias nublados, abafados e “úmidos”, quando a temperatura fica elevada demais e a gente se sente mal e indisposto. Tudo era motivo para irritação. Qualquer coisa seria a gota d’água. E foi. Olhei para a bagunça, para a “contravenção” da Luísa e, em seguida, exclamei (em um tom acima do normal):

_ Puxa vida, Luisa. Olha bem o que você fez.

A pequena parou de mexer nas massinhas, olhou para tudo em cima da mesa e não escondeu sua decepção com a bronca. Fez um beicinho, mexeu com os dedinhos em duas ou três massinhas e falou com toda a ternura, quase que sorrindo.

_ É sujeira papai. Depois limpa, né?

Foi como uma bofetada. Vi que, de fato, não parecia sentido uma bronca naquele tom. Ela tentava fazer um “sanduíche” de massinha para me presentear e misturou as cores para fazer o recheio. Também me contou, maravilhada, que havia transformado o vermelho e o branco em cor de rosa.

Sentei ao seu lado e tratei de separar e guardar o resto das massinhas para que pudéssemos almoçar. Expliquei que a massinha não era para ser espalhada pelo chão, agradeci pelo sanduíche de “presente” e acrescentei que, se ela misturasse tudo daquele jeito, logo ficaria sem os brinquedos.

Sem pestanejar, Luísa retrucou que a “Lelê” mistura as massinhas e que, por isso, faz novas cores. Lelê, para quem não sabe, é uma menina que mantém um canal no Youtube, adorado pela criançada. Respirei, olhei para aquele serzinho com menos de um metro e cabelos cacheados e constatei: Luisa estava argumentando. E me dando um nó.

Cortei o assunto para não me enrolar mais. Fiquei pensando depois sobre essa questão de certo e errado, pode ou não pode fazer isso. Isso pode, aquilo não. O outro pode, você não. Gente, como é difícil. Qual é o limite? O que devo permitir e o que devo proibir? Proibir seria a palavra correta? Creio que não.

Já me disseram que sou uma pessoa “permissiva” em relação à Luísa. As vezes até acho que eu contorno demais a situação, negocio e converso, ao invés de buscar o confronto e mostrar “que quem manda no pedaço sou eu”. Faz parte de minha cultura: tento conversar e não impor. Espero a tempestade passar para explicar o que não gostei. Particularmente não gosto da imposição, da obediência às cegas ou do “por que sim” ou “por que eu quero” como justificativa.

Não sei se estou certo. Mas também não sei se estou errado. Afinal de contas, qual é o limite? Sou eu quem devo impô-lo ou é algum dos especialistas que leio?

Lógico que não vou deixar, por exemplo, Luísa escrever nas paredes da casa e jogar tudo no chão. Entretanto, fico na dúvida, por que cismei que ela não podia misturar as massinhas? De onde tirei isso para colocar no nosso “código de posturas”? Por que aquela bagunça me irritou tanto?

Almoçamos e mesmo com chuva, saímos um pouco de casa para fugir do calor. Não chegamos a andar nem um quarteirão e eis que Luísa deu um grande salto numa poça formada pela chuva.

_Olhe papai, sou a Peppa. Eu “adora” poça de lama.

Precisei rapidamente recorrer ao meu regulamento para decretar: “pular na lama não pode”. Aí uma vozinha (não a da Luísa, a da minha consciência) me questionou: “por quê não pode?”. Fiquei mudo. Estático. Foi uma das poucas vezes que eu, sinceramente, não tinha a mínima ideia do que fazer.

_Plosh, Plush, Plash.

Luísa pulava, pulava e pulava. Ria sozinha. Ou melhor, gargalhava alto. Uma vizinha chegou a aparecer no portão e ria a cada salto. Naquele instante parei de ficar questionando, impondo isso ou aquilo, redigindo imensos parágrafos, incisos e novos artigos em meu regulamento. A lei que importava era apenas uma: ser feliz e sorrir.

E aí pulei na lama junto com a Luísa.

 

 

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