Os “terríveis dois anos”: a primeira adolescência

 

Terrible Two, Terríveis dois anos

Ganhar um beijo por livre e espontânea vontade: taí uma coisa cada vez mais rara

 

Tentava me concentrar no trânsito mas os nervos já estavam à flor de pele. Luísa berrava dentro do carro há mais de meia hora e nada fazia com que ela se acalmasse. Os motivos eram tantos que já havia até perdido a conta: ovo de chocolate, pão de queijo, queria ir para casa dormir, queria a mamãe, queria batata frita, queria ficar na cadeirinha sem o cinto de segurança. Queria, queria e queria…

Aumentei o rádio, conversei, me irritei, respirei fundo. Enfim, fiz de tudo. Acho que todo o show começou por que ela pediu uma mexerica assim que a busquei na creche. Falei que precisava parar em um supermercado para comprar, mas Luísa não aceitou. Queria agora, naquele instante. E seguimos assim por vinte quilômetros até que chegamos no trabalho da mamãe e tudo acabou. O “alvo” passou a ser a Gisele.

_ Você não é minha “aguiga”. (amiga)

Já escrevi sobre os “terrible two” ou “terríveis dois anos”. O período é chamado de primeira adolescência, é bastante comum e faz parte do desenvolvimento da criança. Só que é um susto para os papais e mamães. Aquele bebê lindo que sorria para todos e era dengoso até um tempo atrás, de repente passa a urrar de raiva por qualquer coisa, grita por que quer usar bota de borracha em um dia de calor ou colocar aquele vestido de alça no meio da chuva. Ah, e também passa a pedir qualquer coisa choramingando e a recusar um beijo.

Aí quando conseguimos dar um estalinho no rosto, Luísa olha bem nos nossos olhos, faz uma cara de nojo e passa a mão na bochecha para “limpar” o beijo.

Não somos mais os amigos. Somos os chatos. E o não é a palavra que mais ouço durante o dia.

Temos sido mais duros com a Luísa. Não pelo beijo não dado, mas pelos seus acessos de fúria ou teimosias. Nunca presenciei minha filha se esborrachando no chão e fazendo uma birra horrorosa na fila do supermercado ou no banco, só que temos agido justamente para evitar que isso aconteça. Respiramos fundo, esperamos passar a raiva dela e então conversamos firmemente, olhando em seus olhos.

Temos que impor os limites sem nos esquecermos que diante de nós existe uma criança com dois anos que não sabe lidar com a frustração e que não tem a noção de tempo. Se ela quer algo não é para depois do almoço ou amanhã, é para aquele instante. Tentamos ser carinhosos, pacientes e ensinar Luísa a enfrentar seus sentimentos. E ainda mais fortes para domar os nossos. Por que isso não é uma tarefa das mais fáceis. Existe uma linha tênue entre manter a calma e passar uma coisa boa para Luísa ou deixar a situação descambar para o caos completo.

Caso contrário, seremos nós os terríveis adultos de dois anos…

Andei pesquisando sobre os “terrible two” e vi que é uma questão de evolução das crianças. Não adianta nós pais nos descabelarmos, gritarmos e perdemos as estribeiras também. É uma grande oportunidade para estarmos próximos, darmos carinho e educar nossos pequenos. É chance de aproximação e de criação de um vínculo ainda mais estreito, baseado no respeito. O período engloba dos 18 meses aos três anos de idade. Alguns especialistas defendem que a fase pode se estender até os quatro anos de idade, mas prefiro, até por uma questão de sobrevivência e por ser um eterno otimista , acreditar na outra corrente.

A birra no carro naquela tarde de sexta-feira prosseguiu depois que encontramos a mamãe. Luísa não estava de bom humor, resmungou de tudo e todos pelo caminho e logo ao chegar em casa pediu para dormir.

No dia seguinte, quando acordei, Luisa já estava com os olhos abertos. Me viu e deu um largo sorriso. Disse bom dia e me deu um beijo estalado no rosto. Outro dia desses, do nada, chegou perto de mim, deu um abraço e falou:

_Eu adooooora papai…

É…são os terríveis dois anos… Que dependendo da forma que o encaramos, também podem ser chamados de os incríveis dois anos….

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