Pai que “ajuda” é coisa do passado

 

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Lembro que minha mãe saia para dar aulas a noite e meu pai era quem ficava com a gente. Ele enfrentava uma jornada de trabalho o dia todo e depois precisava encarar três crianças por mais algumas horas. Hoje, quando vejo Luísa pulando e correndo sem sinais de quer quer pegar no sono já perto das 22 horas, penso comigo: “Como meu pai conseguia fazer aquilo? Três de uma vez?”.

E isso faz quase quarenta anos e me serve de exemplo até hoje. A atenção, o cuidado e o carinho que eu e meus irmãos tivemos – e temos – do nosso pai fez com que eu tentasse repetir tudo isso na criação da Luísa. O seu Zé sempre é presente em nossas vidas e me recordo de uma coisa importante: a “qualidade” do tempo em que passamos juntos.

Pai Zé

Se já me canso só com a Luísa, imagina três?

Hoje muitos papais se dedicam a cuidar dos filhos. Só que infelizmente os estereótipos continuam. O termo “pai que ajuda”, ou então imagens e postagens mostrando a “falta de habilidade” paterna no cuidado dos filhos ainda pipocam pela internet. E isso, no entendimento de especialistas, não deveria ser objeto de compartilhamento.

O relatório “A Situação da Paternidade no Mundo”desenvolvido pela organização Men Care e pelo Instituto Promundo, mostra exatamente o que narrei ali em cima. O papai que cuida e que divide, entrega para a sociedade uma pessoa que irá fazer o mesmo, o que por si já é uma grande conquista nas relações de gênero e na busca por uma sociedade mais igualitária.

Vamos resumir? A história que “não basta ser pai, tem que participar”, já é coisa do passado. A questão não é ajudar a trocar fraldas uma ou duas vezes ao dia. Se a responsabilidade é dos dois, pai e mãe, o “cool” é dividir as tarefas.

De acordo com socióloga da Linha de Paternidade e Cuidado do Instituto Promundo no Brasil, Milena do Carmo, os benefícios dessa divisão são verificados em vários aspectos, desde melhoras no rendimento escolar e desenvolvimento cognitivo até redução de taxas de delinquência e melhora autoestima da mulher e relações familiares.

Então, muita atenção: não é legal ficar se passando de papai paspalhão, certo? Isso só reforça o preconceito.

“Os homens precisam aprender que é muito mais gratificante envolver-se por completo do que ser pai de facebook, por exemplo. Por isso, o primeiro mito que precisamos desconstruir é do pai que “ajuda”. O pai não tem que ‘ajudar’, porque a responsabilidade não é da mãe. Ele deve dividir, porque a responsabilidade é de ambos”, diz Milena. “As mães, avós e cuidadoras em geral precisam entender que o pai também precisa de “permissão” para cuidar, acertar, errar e aprender. Vemos muitos casos em que avós não permitem que os pais tomem conta, “porque não sabem como fazê-lo”. Além disso, é importante não compartilharmos aquele tipo de piada que ridiculariza os homens por seus erros, porque com isso estamos estimulando a criação de um esteriótipo e reforçando o preconceito”.

Milena dá uma dica que achei interessante: mudar os presentes que damos para os meninos e meninas.” É uma excelente estratégia. Meninos que brincam de bonecas podem se tornar o quê? Pais, irmãos, tios e cuidadores em geral que sabem trocar fraldas”, defende. “Esse tipo de ação é pessoal e é política, porque você mostra que há outros caminhos e acaba influenciando as pessoas ao seu redor”.

Acompanhe mais sobre paternidade envolvido em nosso especial do Dia dos Pais

Aqui segue um vídeo legal sobre a campanha da MenCare abordando o envolvimento dos pais na criação dos filhos.

 

 

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