Papai, o dinossauro do jardim

 

Dinossauro de jardim

 

_Papai, vamos brincar ?

Havia uma pilha de louças sujas na pia da cozinha. Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação e dissesse que iria brincar depois, Luísa pegou sua maletinha, correu com uma boneca em minha direção e disparou:

_ Eu sou a ”dotola” e o papai é a mamãe.

Mamãe a que ela se refere é a mamãe da Cacá, uma de suas bonecas. A brincadeira consiste em levar a paciente ao médico para que a “dotola” a examine, coloque o termômetro, dê injeção e um remédio de “beber”. Pronto. São pelo menos umas 846 consultas seguidas e fico imaginando que, se fosse uma criança de verdade, a boneca estaria parecendo uma peneira tamanha a quantidade de injeções receitadas pela “dotola Luísa”.

Depois da Cacá, é a vez das princesas. Cinderela, Branca de Neve, Elsa, Anna…. enfim, nenhuma escapa e são todas devidamente analisadas e medicadas.

Aí a Luísa se cansa da brincadeira, olha pela janela e grita de alegria ao ver o sol… Quer brincar lá fora.

_ Vamos “conde conde conde” (traduzindo: brincar de esconde-esconde).

Depois de me esconder na horta umas quinze vezes, é a vez do pega-pega e de tratar de colocar a imaginação para trabalhar. Primeiro me transformo em um maldoso dinossauro que mora entre as palmeiras e bromélias do jardim e, logo depois, o cesto de prendedores de roupas vira a cestinha de doces que Chapeuzinho Vermelho leva para a vovozinha.

E a pilha de louças vai ficando para depois…

Corro pela grama, rolamos e brincamos de pular. A penduro no muro pelo lado de dentro para que ela veja o movimento na rua.

E a pilha de louças continua linda…

Olho para o relógio e vejo que o tempo é curto. São mais de onze horas da manhã e preciso correr com o banho, lavar os cabelos toinoinoin, almoçar e levar Luísa para a creche. Uma correria só. No banho, os potes de shampoo usados se transformam em panelas e depois em pequenas piscinas para bonequinhos do Kinder Ovo possam mergulhar.

Agora chega a hora de negociar a roupa para irmos à creche. Normalmente uma calça vermelha – o resto pode ser qualquer coisa… Difícil também é dar um trato no cabelo com uma escova e um creme de pentear, sob um estrondoso e espalhafatoso protesto da Luísa. E lá vamos nós, que é hora de almoçar.

Opa… Eu disse almoçar? Almoçar o que? Esqueci de deixar tudo pronto….. Não consigo me aproximar da pia. A louça suja parece ter se procriado de uma hora para outra.

A solução é ir comer no “boi”, um restaurante que tem aqui perto e que conta com um parquinho e uns bois para criançada brincar.

Mais brincadeiras no escorregador, nas carroças e no pátio. E enfim, chega a hora da creche. Luísa me abraça, ameaça chorar, mas logo pula no colo das professoras. Do lado de fora, ainda escuto ela falar uma ou outra coisa enquanto tiro uma princesa, uma colher de plástico e outros badulaques do meu bolso.

Como é bom ser criança, penso. Como faz bem brincar e fantasiar tudo. Quando me transformo no homem de ferro ou no dinossauro do jardim, esqueço os problemas, da correria do dia a dia, me esqueço da Dilma e do Temer e até mesmo das louças. Percebo o quanto faz bem dedicar um tempo para brincar com a filhota, passo a conhecê-la melhor, saber seus limites e seus medos, saber o que a agrada mais. Isso não tem preço.

Participar da infância de seu filho é algo que todos os pais devem experimentar. Tudo bem que é importante que eles brinquem com outras crianças, que frequentem escolinha e cursos extracurriculares. Mas o ócio, o “não fazer nada”, abre espaço para brincadeiras. E esses momentos particulares são inesquecíveis para ambos. Além de valiosos para aumentar o vínculo e o grau de confiança entre pais e os pequenos.

A manhã acabou. Vou para casa pois chegou a hora de “virar adulto”. Enfrentar minha pilha de louças, colocar roupa no varal e o lixo para fora. E de trabalhar diante do computador.

Faço isso muito mais feliz pois, apesar de voltar ao mundo dos adultos, sei que em uma manhã qualquer ainda posso deixar tudo de lado e me transformar em um grande dinossauro de jardim.

 

 

You may also like...