Atenção papais: Paternidade ativa não é só trocar fraldas e pagar contas, aponta relatório

Os homens devem sempre ser a cabeça da casa.

Eles podem até ajudar, mas quem deve ser responsável por cuidar da casa é a mulher.

É inaceitável que a mulher não mantenha a casa em ordem.

O papel mais importante da mulher é o de cuidar da casa e cozinhar para a família.

 

Pode parecer estranho que, em pleno século XXI, ainda esteja lendo coisas deste tipo. Acredite: você não só está lendo como isso é muito mais comum do que pode imaginar.

Afirmações como estas constam em pesquisas citadas no Relatório da Situação da Paternidade no Brasil, divulgado pela Promundo. E pasmem: essas frases que pesquei no texto foram apoiadas por mais de 50% de homens ouvidos em diversos levantamentos sobre gênero (mais detalhes estão na página 51 do documento).

E o que isso tem a ver com um blog de papais? Por que a paternidade importa tanto? E o que ela tem a ver com as declarações lá de cima? Tudo. Fortalecendo a participação masculina no cuidado com os filhos e atenção à família estamos trabalhando questões sobre equidade de gênero, direitos sexuais e prevenção à violência. As nossas filhas e- e filhos – agradecem.

O estudo da Promundo mostra avanços em relação ao tema (até o Diario do Papai, o 4Daddy e o blog Paizinho, Vírgula são citados, o que me deixou todo inchado). Os pais tem participado mais, mas não dividem as tarefas.

As mulheres representam 40% da força de trabalho. Só que, em casa, trabalham quase duas vezes mais do que os homens: 25 horas por semana, contra 15 dos homens (IPEA,2010). Ou seja, o problema começa em casa, na divisão dos afazeres que os estudiosos chamam de tarefas não remuneradas mas que, resumindo, significam lavar louça, fazer comida, lavar roupa, estender roupa no varal, limpar a casa, colocar lixo para fora, cuidar dos filhos, trocar fraldas, dar banho, papinha, levar ao pediatra e ufa, contar histórias.

Uma pesquisa interessante coordenada pela Promundo (página 50) ouviu mais de 8 mil homens em vários países, sendo 750 deles no Brasil. 39% brasileiros disseram participar ativamente do cuidado diário dos filhos, além de ajudarem em atividades domésticas como lavar roupa (38%), limpar a casa (49%) e fazer comida (45%). As respostas, confrontadas com as das mulheres, mostram diferenças absurdas: 10% dos homens, segundo elas, ajudam no cuidado com os filhos, enquando apenas 17% limpam a casa e 14% preparam comida. Ou seja, os homens falam que ajudam, mas as mulheres dizem que não é bem assim.

Sabem quais são as “atividades” que os papais mais realizam com os seus filhos de 0 a 4 anos? Primeiro lugar absoluto foi “brincar”, com 72% e “trocar fraldas” na segunda posição, com 42%.

_ Sou um pai que ajuda.
_ Troco as fraldas do meu filho.
_ Sempre que posso, ajudo com o banho do bebê.
_ Troco as fraldas quando tem xixi. O número dois eu não consigo.
_ Pego meus filhos na creche.
_ Sou um pai participativo. Brinco muito com eles.
_ Minha maior ajuda em casa é a financeira. Sou eu quem paga as contas.

Quem nunca ouviu coisas parecidas como essas? Ou quem nunca viu uma série de piadas, charges e perfis na internet fortalecendo estereótipos criados para mostrar que pai não sabe cuidar? O Brasil ainda precisa avançar, pois até as campanhas publicitárias focadas em família são praticamente todas direcionadas apenas às mamães. Nos EUA, por exemplo, o cenário vem mudando e até eventos destinados a papais estão sendo realizados, como Dad 2.0 Summit, realizado no início de fevereiro na Califórnia.

Poderia ficar me alongando aqui a falar sobre o relatório. Mas decidi abordar aos poucos – e sempre.

Precisamos proporcionar a participação ativa dos papais na vida dos filhos. Essa é uma questão de saúde pública, que traz um pouco mais de igualdade, além do desenvolvimento da criança e o bem estar dos próprios homens.

E temos que começar agora, com os novos papais. Existem mais de cinco milhões de pessoas sequer sem o nome do pai na certidão de nascimento. Outros tantos o tem, mas contam com um pai por perto? A principal porta de entrada para mudar esse cenário é justamente o setor de saúde. Por isso, o poder público deve criar formas para possibilitar aos pais acompanharem as consultas pré-natal, além de investir em informações e orientações. Existem vários projetos legais como o Programa P ou o Mês da Valorização da Paternidade, no Rio de Janeiro, além de várias ações interessantes conduzidas pelo Instituto Papai (PE).

Rodas de conversa, debates, troca de experiências e dicas são sempre bem vindas. E sei de vários papais e mamães que estão dispostos a ajudar.

Eu não tive nada disso, nosso pré-natal durou três dias e tive que aprender a ser pai na marra. Mas toda essa loucura me transformou e me transforma a cada dia. E falo por experiência própria: convivo com as maravilhas e com o preconceito de ser pai em tempo integral (que existe sim, senhores, mas prometo contar em um novo post). Não é fácil, muitas vezes é cansativo, repetitivo, desgastante….

E para começar precisamos mudar esse conceito lá de cima do texto, de que isso é tarefa de homem e essa é tarefa de mulher. Pais e mães interagem de formas diferentes. Na prática, a única coisa que não conseguimos fazer depois que nossos filhos nascem é amamentar. Então, não tem desculpa.

Seu filho precisa de você como cuidador. Não só como homem ou pagador de contas, mas como ser humano.

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