Projeto ensina empreendedorismo adolescentes que esperam adoção “impossível”

Em uma das visitas ao abrigo em que conhecemos Luisa, conheci um garoto que aguardava por uma família. Ele soltava pipa do lado de fora. Estava com o olhar distante, quase estático, em direção ao brinquedo. A feição era de tristeza enquanto observava o remexer da pipa no céu. Falei um oi e recebi como retorno um discreto abanar das mãos.

Adoção tardia

Esse menino havia recém completado 17 anos e ainda aguardava por uma adoção. Passou toda a infância entre idas e vindas em instituição de acolhimento. Acredito que o pensamento distante tinha uma razão: o garoto, beirando a maioridade, negro e filho biológico de usuários de drogas, sabia que uma adoção a essa altura seria difícil.

E quando completasse 18 anos, o que aconteceria?

Ele simplesmente é desligado do abrigo e passa a viver por conta própria. Ou seja, novo abandono, desta vez por parte do estado que o acolheu. Com baixa escolaridade e baixa qualificação profissional, o futuro de adolescentes nessa situação e torna incerto. Creio eu que seja um abandono ainda mais cruel do que o do início da vida.

Falei deste caso para contar uma iniciativa de um casal do Rio de Janeiro, que passou a oferecer oportunidade de capacitação em empreendedorismo para esses jovens. O caso foi citado em reportagem do Conselho Nacional da Justiça.

O projeto chamado “Adotei adolescentes: talentos, empreendedorismo e inovação” foi um dos finalistas do Prêmio Innovare 2017. “A nossa ideia é mostrar para o jovem que ele pode ser dono do seu próprio negócio e ajudá-lo a se posicionar no mercado e obter uma renda sem necessariamente depender de um emprego formal”, explicou João Luiz Ponce Maia, criador e coordenador do projeto e  um pretendente à adoção cadastrado no Cadastro Nacional de Adoção (CNA).

Ele botou a mão na massa para ajudar os adolescentes de 15 a 17 anos, que são pretendidos por apenas 1% dos cadastrados. A inspiração de Maia surgiu como forma de desconstruir a ideia de invisibilidade destes jovens que vivem em abrigos. O projeto identifica competência, desenvolve as habilidades e tem como objetivo formar empreendedores antes que eles completem 18 anos.

O curso de capacitação é dividido em três fases: preparar, criar e crescer. Na fase de preparação, a equipe ajuda o adolescente a identificar uma área de afinidade. “Gastronomia, Design, Moda e Fotografia estão entre os preferidos dos jovens”, contou Maia. Na segunda fase, o grupo modela a estrutura do negócio e, na fase três, acontece o lançamento oficial junto com a monitoria do empreendimento.

“O nosso maior desafio é manter o jovem no abrigo até o final do curso, pois muitos saem antes dos 18 anos e se sair, não pode participar mais da capacitação”, disse o coordenador do projeto. Por enquanto apenas seis adolescentes concluíram o programa – o que por um lado não é uma notícia de todo ruim. No entanto, para 2018, cerca de 20 já estão inscritos para as aulas, que começarão em fevereiro também em São Paulo, graças a uma parceria com a Vara da Infância e da Juventude de São Miguel, em São Paulo.

Iniciativa super bacana e que ajuda a preparar aqueles que tiveram negado amor e família. É uma boa saída.

Sobre o garoto da pipa, o vi uma outra e derradeira vez em que fui levar umas coisas para doar no abrigo. Depois nunca mais soube dele. Ele já completou dezoito anos e foi obrigado a ir embora, a se virar com aluguel, alimentação, trabalho e com os seus estudos. Estudar, fazer um bom cursinho e passar na Universidade Federal.

É o que todos esperam de qualquer pessoa, certo? O estado e as instituições devem achar que já fizeram sua parte afinal, o acolheram e o alimentaram por anos a fio, né?

Eu só queria acreditar que o menino da pipa conseguiu uma família e que está tudo bem.

 

Quer adotar? Acesse nosso guia e saiba todo o passo a passo. Clique aqui.

 

*Com informações do Conselho Nacional da Justiça

You may also like...