#RIP Momô

 

cachorrinho capa

 

Cheguei à creche no final da tarde e Luísa logo veio ao meu encontro. Ela sorria, mas demonstrava estar muito ansiosa. Logo percebi que havia alguma coisa errada.

_ Momô, Momô….Papai, papai, o Momô!!

Havia acontecido o que eu temia: Luísa tinha perdido o Momô. Antes que eu perguntasse qualquer coisa, uma das professoras explicou que o cachorrinho de pelúcia havia desaparecido pouco antes, durante as atividades no parquinho.

Logo depois, me contaram que na hora das brincadeiras a pequena estava de mau humor. Chorava e pedia insistentemente pelo Momô. Assim que o entregaram, ela saiu correndo toda a faceira pelo parquinho. Só que depois, o pobre coitado simplesmente desapareceu. Reviraram o local – o pátio da creche é imenso – e não encontraram nada.

Nem uma orelhinha, um trapinho, nada. Nem sinal.

Arragalei os olhos e fiquei pálido. Quem acompanha o blog sabe como é a ligação entre Luísa e Momô. Já contei a história aqui e até criei uma campanha para conseguir outro modelo igual. Consegui, mas a versão zero quilômetro não foi bem aceita. E agora? Ela não saía de casa sem sua companhia, dormia agarrada ao bichinho e pedia por ele no meio da noite. O que seria se ele não reaparecesse?

_ Vamos procurá-lo, Luísa.

E lá fomos nós, cheios de confiança. Rodei o parquinho umas 37 vezes, entrei em escorregadores, casinhas de madeira, olhei vasos e até em cima de árvores.

Nada.

Luísa apontava para um local, para outro. Eu vasculhava. Cheguei a subir o muro e olhar para o terreno do lado, onde fica um estacionamento do posto de saúde. Cavei buracos na areia e usei o flash da câmera para iluminar áreas mais escuras, enquanto outras professoras me ajudavam na missão.

Nada.

Nem sinal do Momô.

Não havia mais onde procurar. Para ter certeza, despejei tudo da mochilinha no chão para ver se por engano o cachorrinho não estaria ali. Não estava.

O jeito era ir embora e pensar em como trabalhar a primeira perda da Luísa. Assim que entrei no carro, Luísa pediu pelo companheirinho. A minha reação foi a mais madura possível naquele momento de crise: informei que ele havia se perdido e passei a chorar. Chorei copiosamente durante os seis quilômetros de trajeto entre a creche e nossa casa. Pedi desculpas por não ter encontrado o bichinho, por ele dormir no sereno e etc…. Lamentei pela ausência, pedi ao São Longuinho que nos ajudasse na empreitada. E chorei mais um pouco.

Luísa, com os olhos mais esbugalhados do que de costume, me observou. Fez um biquinho, mas ao contrário do que eu mesmo esperava, só me analisou.

Chegamos em casa e me preparei para o pior. Não demorou muito e ela pediu para nanar. Lamurei mais um pouco, temi por longos momentos de birra, choro e achei que nada acalentaria a Luísa. E o que aconteceu? Simplesmente ela agarrou ao Momô zero quilômetro, o colocou entre seus braços e se deitou para um cochilo. Não derramou sequer uma lágrima… E foi isso.

Foi um tapa na minha cara. Ou melhor, um soco.. um direto no queixo. Como assim? Chorei, esperneei e lamentei pelo Momô. E ela, nada.

No dia seguinte, passei a olhar para a lição de desapego que minha pequena filha havia me dado. Olhei para meu armário, minhas gavetas, meu escritório, e vi quantas coisas com valor infinitamente menor do que o Momô eu vinha guardando – algumas há anos. Percebi que o apego maior pelo cachorrinho parecia ser meu, e não dela. E acho que talvez eu mesmo criasse essa dependência…

Fiquei envergonhado. Quem parecia uma criança de dois anos era eu, e não ela.

Já faz uma semana que o Momô se foi. E Luísa o substituiu sem problemas. Ela não parece sentir sua falta: algumas vezes conta que o perdeu na creche, mas não prolonga o assunto. Chama o outro cachorrinho pelo mesmo nome. Enfim, não demonstrou estar abalada.

Passada a vergonha, percebi que tudo tem um objetivo em nossa vida, até mesmo a existência de um pequeno cachorro de pelúcia. Talvez a missão do Momô não fosse apenas ser o companheiro inseparável da Luísa por dois anos e meio. Poderia ser a de ensiná-la algo sobre perda.

Mas tenho a absoluta convicção de que a principal função dele foi trazer ao papai aqui um pouco mais de consciência sobre uma questão que até então era muito difícil para mim: o desapego. Ele existiu, foi companheiro inseparável, andava aos trapos ultimamente e despertou todo nosso carinho. Mas acabou. Fez o que tinha que ser feito e desapareceu em um parquinho.

Incrível ser preciso que minha filha tenha perdido o Momô para que eu percebesse que, assim como ele, muitas coisas na vida acabam cumprindo o seu ciclo. Elas vem, vão, e deixam lembranças. Algumas ruins, outras boas, só que todas proveitosas para que possamos seguir nosso caminho e evoluirmos. O segredo é deixar a vida seguir seu rumo,sem ficar parando demais para lamentações. Fazer exatamente o que a Luísa fez: se adaptar. Let it go….

De tudo isso tenho boas lembranças, um grande sacode e uma lição que deve me fazer crescer. Espero não ser mais um homem quase quarentão agindo como uma criança de dois anos.

E só tenho uma coisa a dizer: obrigado por tudo, Momô. A Luísa eu não sei, mas eu nunca vou te esquecer…

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