Sobre tranças e plié

Foi preciso menos de dois minutos de aula para que Luisa começasse a chorar. O choro era tão alto e dolorido que as coleguinhas arregalaram os olhos e pararam petrificadas. Eu ouvia os gritos do lado de fora da sala. A aula de balé chegava ao fim.

Tranças no cabelo

De repente a porta se abre e aparece Luísa de mãos dadas com a professora. Ela queria que eu ficasse na sala. Disse que não queria fazer o balé se eu não estivesse por perto. Já fazia um mês que estava acompanhando as aulas e vínhamos protelando a “combinação” feita entre nós e a professora (não gosto de usar o termo regra) de que eu não ficaria mais lá dentro. Peguei a pequena no colo e anunciei:

_Vamos embora então. Não tem problema. Se você não quer, não quer.

Mais choro. Um urro que a academia inteira ouviu e olhou para ver o que estaria acontecendo. Dias antes já havíamos passado por situação semelhante na piscina: um menino jogou água em seu rosto logo no início da aula. Pronto. Luísa se agarrou na borda e chorou, chorou, chorou. Berrava por mim. Queria ir embora.

Naquele dia, apareceram mães e pessoas de todos os cantos exigindo que eu a retirasse da piscina. Mas eu não fiz isso pois havia combinado com os professores e com a própria Luísa. Foi o caos. Ouvi opiniões, críticas, pedidos e até uma “especialista” que ameaçou ligar para Deus e o mundo.

_ A senhora me desculpe. Pode ter todas as titulações que disse, mas aqui o especialista na minha filha sou eu – expliquei.

Desta vez, não queria repetir o bafão. Falei mais uma vez com firmeza:

_ Vamos embora e outro dia você volta.

_ Não papai, eu vou fazer.

_ Mas não vou ficar dentro da sala. Vou ficar aqui fora te olhando e esperando. Foi isso o que combinamos desde que você pediu para fazer balé.

Ballet pliéLuísa parou de chorar. Entrou na sala e fez toda a aula como se nada, absolutamente nada, tivesse acontecido. Depois disso, saiu toda orgulhosa e feliz. Mas o estranho é que não trocou uma palavra comigo até chegar em casa. Ficou olhando pela janela do carro e parecia estar com os pensamentos bem distantes dali. Me avisou que não queria tomar banho e que não queria ir para a creche naquele dia. Retruquei que faríamos as duas coisas, sim.

Novo chilique. Chilique durou apenas até entrar no banho.

Novo silêncio.

A esta altura dá para imaginar o estado de nervos do papai. Costumam dizer que sou um poço de paciência. Mas tudo tem o seu limite.

_ Pai, faz uma trança da Elsa em mim? Quero mostrar na creche.

Agora eu iria explodir. Como assim? Não fala comigo e pede um troço desses? Nunca fiz uma trança na vida. Isso normalmente é a Gisele quem faz porque não tenho o menor jeito. Respirei fundo – bem fundo – e, como não estava afim de outro berreiro, fiz a proposta:

_ Não sei fazer, vamos descobrir uma no Youtube e ver se eu consigo? Me ajuda?

Ainda emburradinha, ela topou. Achei um tutorial bem simples produzido por uma menina de uns sete anos e fui seguindo passo a passo para montar uma trança igual a da Elsa.

Ficamos em silêncio todo o tempo.

A trança ficou pronta. Luísa se olhou no espelho, conferiu se estava certa e abriu aquele sorriso encantador.

_ Obrigada, papai.

Dançou, riu alto e voltou a falar comigo. Me mostrou como sabia fazer um plié e questionou se eu não saberia fazer. Olhei bem para ela, sorri e calmamente perguntei por que ela estava fazendo birra na hora da aula.

_ Você não gosta de ir ao balé, Luísa? Se você não quer ir mais não tem problema, é só falar.

_ Eu gosto do balé. Só que eu gosto mais de você.

Luísa sempre me derrubando com seus argumentos. Expliquei que sempre estarei do lado dela, que sempre irei buscá-la na creche, no balé ou onde quer que seja. E que não precisaria chorar. Brincamos um pouco e fomos para a creche. Sem estresse. Até mesmo uma menina de 4 anos tem seus momentos de insegurança, irritação e saber lidar com isso é difícil.

Desde então, todas as manhãs recarregamos nossas baterias brincando de plié. E depois fazemos tranças no cabelo.

Em silêncio.

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