Transitado em julgado

 

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E depois de quatro anos o processo de adoção foi enfim finalizado.

A sentença final saiu em março deste ano, mas a burocracia fez com que a gente só conseguisse registrar Luísa Prado Escandiussi no dia  2 de julho.

Entramos com o processo de adoção em 2011 e esperamos por dois anos e meio até que fomos apresentados a um bebê de apenas alguns dias, cabelos arrepiados, olhos de jaboticaba esbugalhados e com uma carinha de assustada.

Como já relatei aqui, o processo de adoção até que eu e Gisele fôssemos habilitados para entrar na fila foi angustiante. A espera nunca é uma coisa com que saibamos lidar e, no caso de algo que queremos muito, torna-se ainda mais penoso.

Mas o que poucos sabem é que a “angústia” depois da chegada do nosso bebê continuou. Eu, particularmente, ficava incomodado cada vez que ia ao pediatra e que chamavam pelo nome da minha filha e um sobrenome que não era o nosso. Aliás, como diz a Gisele, que não “era o nome da Luísa”.

A caderneta de vacinação, a carteirinha de convênio médico, a passagem aérea, tudo, absolutamente tudo, com um nome distinto. Me senti por algumas vezes “bulinado” (vítima de bullyng na minha linguagem chula).

Por mais de um ano e meio, eu era, aos termos da lei, o “responsável”, e não o pai. E vocês não imaginam como isso incomoda.

Na primeira viagem para Minas Gerais, o atendente da Azul Linhas Aéreas olhou o termo de guarda e a certidão de nascimento e chegou a perguntar:

_ Mas cadê a mãe de fato?

Por sorte (dele, não minha)  a Gisele estava atarefada com as bagagens e apetrechos do bebê e não percebeu o teor da pergunta. Acho que nunca comentei isso com ela. Mostrei que os documentos estavam autenticados pela Justiça e então ele rapidamente liberou o check in. Mas sempre fiquei com isso entalado, com a sensação de que faltava alguma coisa.

O processo parece andar o mais lento possível. É preciso um tempo para a chamada “adaptação”, depois é realizado um estudo social (o que no nosso caso não demorou) e em seguida os documentos são enviados para a manifestação do Ministério Público. Aí esteve a demora torturante: o MP esperava o decurso do prazo e só se manifestava depois de cobrado. E olha que era um simples ofício que deveria ser feito, desses que encontramos milhares de modelos prontos na internet.

A falta de pessoal e a greve do Judiciário aqui em Santa Catarina ainda ajudaram na demora. O cartório que tinha a atribuição de expedir os mandados para que pudéssemos registrar Luísa tinha apenas uma funcionária responsável pela confecção de documentos e a mesma aderiu ao movimento. Quando retornou, uma pilha de documentos aguardava o seu devido caminho.

Eu descobri e, para quem não sabe, a finalização do processo de adoção ocorre da seguinte maneira. É feito o estudo social, o Judiciário analisa e emite ao Ministério Público para manifestação, em seguida é feita a sentença e por final, são emitidos dois mandados: um para cancelamento da certidão de nascimento original e outro determinando o novo registro. A demora entre a manifestação do MP e da confecção dos mandados foi de matar.

A sentença sobre a adoção foi assinada em março e, pelo acúmulo de trabalho e falta de servidores, os mandados só foram expedidos mais de três meses depois. O mandado se resume à uma folha. Só.

O Brasil, como país burocrata que é, ainda nos traz algumas surpresas. No início desta semana eu e Gisele fomos felizes e contentes a um cartório para registrar a Luísa. O registro foi negado com o argumento de que só poderia ser feito na jurisdição onde morávamos ou no mesmo  cartório em que foi emitida a primeira certidão. Mais angústia, mais burocracia.

E o lenga lenga que impera em tudo nos limita a uma série de coisas. A Luisa sequer foi batizada ainda, por exemplo, porque algumas paróquias não admitem batizar com o nome distinto da certidão de nascimento. Pode ser algo pequeno para alguns, mas para a família faz diferença.

No dia 2 de julho, enfim, fiz o registro onde a primeira certidão havia sido cancelada. A Gisele queria muito ir para participar do momento (que para nós era super importante), mas não conseguiu.

E qual a nossa sensação ao enfim olharmos a certidão de nascimento da Luísa com o seu sobrenome? De alívio… A sensação de que agora não somos apenas pais de fato, somos pais também perante a lei.

Quatro anos. Dois anos e meio até a chegada dela e mais um ano e meio para o reconhecimento da Justiça. Temos mais uma data para comemorar: o nascimento, a chegada da pequena em casa e o documento.

Transitado em julgado.

Gisele é mamãe. Eu sou papai. É oficial.

Luísa é agora, Luísa Prado Escandiussi.

 

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Comentários

  1. Haroldo Gessoni disse:

    Parabéns família!
    É extremamente angustiante essa espera mas como você mesmo coloca é mais uma data a ser comemorada.
    Sempre achei que esses anjos que Deus coloca nas nossas vidas ficam aguardando o momento e a família certa. Esse é o momento da Luísa e agora a família dela. A sensação que tenho é que eles quem nos escolhem. Aconteça o que acontecer e aconteceram muitas coisas o seu sobrenome já estava registrado na certidão lá de cima! Felicidades sempre!
    Abraço…
    Haroldo

    1. Fabrício Escandiuzzi disse:

      Obrigado Haroldo pelas belas palavras e por acompanhar nossa história…. É verdade, nosso nome já está no coração e no registro do “cara” lá de cima.. Que aliás, gosta da gente demais da conta, hehee

  2. Noooossa!!
    Realmente angustiante!!
    Posso ir lá dar na cara desse atendente da cia aérea?? rsrs
    Mas finalmente está no papel o que estava no coração de vocês ha anos!!
    Parabéns família!!
    Bj Bj
    Pri Aitelli
    http://www.mamyantenada.com