World Adoption Day: temos o que comemorar?

 

Dia Mundial da Adoção

 

Comemoramos neste dia 15 de novembro mais uma edição do World Adoption Day, ou Dia Mundial da Adoção. A data. originalmente marcada para o dia 9, este ano foi transferida devido às eleições presidenciais dos EUA.

Transferida ou não, o fato é que a data nos força a fazer uma reflexão – ou várias.  Sob vários aspectos temos o que comemorar, mas ao mesmo tempo temos o que lamentar e ainda muito o que reivindicar. Cheguei a essa “maluca” conclusão ao analisar dados do Cadastro Nacional de Adoção disponibilizados pelo Conselho Nacional de Justiça. Comparei com os números que tive acesso para uma reportagem realizada no ano passado (a matéria pode ser conferida aqui).

Lembrando que os números oficiais refletem uma realidade, digamos, aproximada. Isso porque muitas comarcas demoram para atualizar seus dados e devido ao fato de que o número de habilitados e crianças para adoção muda quase que diariamente.

Esse ano, existem quase cinco mil famílias a mais habilitadas para adoção em relação à reportagem divulgada em 2015. Ao mesmo tempo, o número de crianças para adoção saltou em mais de 1,5 mil. Eram 33.342 famílias cadastradas e 5561 crianças à espera de uma nova família. Agora, em novembro de 2016, são 7193 menores que podem ser adotados por uma das 38.202 pretendentes cadastrados. Em termos percentuais isso representa um crescimento de 30% no número de crianças à espera de um lar.

O aumento no número de pretendentes pode ser alentador. Pode significar que algumas das campanhas realizadas por órgãos públicos parecem ter funcionado – inclusive uma pela adoção tardia criada pela Assembléia Legislativa de Santa Catarina. Só que ao mesmo tempo, esse salto de 30% em relação aos menores que aguardam adoção me dá a impressão de que o sistema judiciário continua sem andar, sem avançar, com cada vez mais entraves que deixam crianças passarem mais e mais tempo em abrigos.

Comemoro que o tema tenha conquistado espaço em campanhas e que o número de interessados em adotar esteja aumentando. Mas lamento que a burocracia torne a questão ainda mais morosa.

Mas sabem o que me entristece mesmo?

O que me entristece é que continuamos em um país racista, repleto de preconceitos e totalmente dissimulado: 20,59% (nada menos do que 7867 pretendentes) SOMENTE ACEITAM CRIANÇAS BRANCAS. Isso é vergonhoso e o critério COR não deveria ser, na minha humilde opinião, opção de escolha pelos adotantes. Já ouvi por aqui e ali, que a questão de escolha de cor de pele seria uma forma de não causar “problema ou preconceito” com sociedade e família. Me desculpem, alguém pode até odiar o que vai ler, mas na minha opinião os pretendentes que escolhem criança para amar pela sua cor não estão prontos para adoção. E por isso não deveriam ser habilitados.

Hoje temos 2438 crianças brancas, 1224 negras, 11 amarelas, 23 indígenas e 3497 pardas cadastradas para adoção. E apenas 43% dos pretendentes aceitam filhos de qualquer raça. As regiões Centro Oeste e Norte são as menos racistas, enquanto na região Sul há o maior preconceito: apenas 41% dos pretendentes aceitam crianças negras, por exemplo. Olha que coisa horrorosa: escolher alguém para amar pela sua “raça”. Não consigo entender isso.

Outro número bastante alarmante é com relação a problemas de saúde: apenas 32% aceitam crianças com algum tipo de doença. Portadores de HIV por exemplo, contam com o interesse de apenas 3% das famílias cadastradas. Para deficientes físicos ou mentais, a chance de encontrar uma família também é pequena: 5% e 2%, respectivamente.

E com relação às crianças que esperam por adoção? Temos 3178 meninas e 4015 meninos constando no Cadastro Nacional da Adoção. O relatório mostra um número extremamente baixo de crianças na faixa etária mais procurada: apenas 19,7% tem entre zero e quatro anos. 260 delas contam menos de um ano de idade, 330 com idade entre um e dois anos, 302 tem entre dois e três anos e finalmente, 267 tem entre três e quatro anos.
Por outro lado, adolescentes com idade entre 12 e 17 anos representam 49,7% – quase metade – dos cadastrados no sistema.

Imagino o quanto deve ser complicado uma adoção tardia. Para os dois lados. Mas penso muito nessas crianças. E quando chegam aos dezoito anos? Precisam deixar o abrigo e pronto? E depois? Vão cair no mundo? O que será delas?

Poderíamos usar o Dia Mundial da Adoção para refletir sobre tudo isso. A adoção é o sonho de muitos. É uma forma do Estado encaminhar aqueles que perderam família ou que então são vítimas de uma situação de exclusão severa.Temos que cobrar mais agilidade do Poder Judiciário nas decisões, mas temos que compreender, ao mesmo tempo, que a Justiça deve observar primeiramente o interesse da criança.

E o interesse do menor deve estar acima, mas muito acima mesmo, da exigência de um pretendente sobre a cor de sua pele ou de sua raça. Não é uma escolha entre um Beagle ou um Chihuahua e sim, em relação a uma pessoinha que já sofreu a pior das rejeições em seus poucos anos de vida. A rejeição de amor, afeto e carinho.

O Estado tem que ser mais ágil, mas direto e menos burocrático na questão de adoção. Por outro lado, temos que entender que não estamos numa fila para adquirir uma bonequinha e atender exclusivamente nosso sonho. Não é essa a função da adoção. Por isso peço que a data sirva para pensarmos muito.

Afinal, a adoção é um encontro de almas e não de cores.  O sorriso da Luisa é capaz de transmitir e comprovar isso não é? Então, é hora de abrir o coração e permitir que o universo possa colaborar e trazer um pequeno grande amor, independente de “raça”.

 

Adoção é alegria

Para quem quiser conferir os dois relatórios na íntegra, seguem os arquivos abaixo:

Relatório Crianças para Adoção – CNJ

Relatório Pretendentes Adoção – CNJ

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